terça-feira, 17 de março de 2009

Luz

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Um espelho em frente de um espelho: imagem
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.

Herberto Hélder

segunda-feira, 16 de março de 2009

Eu

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

(...)
Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...
(...)

Florbela Espanca

domingo, 15 de março de 2009

O Beijo

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neill

sábado, 14 de março de 2009

Coisa: AMAR

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre

quarta-feira, 11 de março de 2009

Os Silêncios

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo
Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo
que não digo
Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei não te persigo
Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo.
Maria Teresa Horta

segunda-feira, 9 de março de 2009

Noutros Lugares

Viana do Castelo © Adelina Silva

(...)
É que os lugares acabam. Ou ainda antes
de serem destruídos, as pessoas somem,
e não mais voltam onde parecia
que elas ou outras voltariam sempre
por toda a eternidade. Mas não voltam,
desviadas por razões ou por razão nenhuma.
É que as maneiras, modos, circunstâncias
mudam. Desertas ficam praias que brilhavam
não de água ou sol mas solta juventude.
(...)
Jorge de Sena

domingo, 8 de março de 2009

Com as Gaivotas

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
Contente de me dar como as gaivotas
bebo o Outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor
por mais que digam é perfeito como a vida.

Tenho tristezas como toda a gente.
E como toda a gente quero alegria.
Mas hoje sou dum céu que tem gaivotas,
leve o diabo essa morte dia a dia.

Eugénio de Andrade, in “Os amantes sem dinheiro”


sexta-feira, 6 de março de 2009

A ponte

Porto, 2009 © Adelina Silva

Entre instante e instante
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.

Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.

De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.

Eu dormirei sob os seus arcos.
Octavio Paz, in "Antologia Poética"

quinta-feira, 5 de março de 2009

Gaivota

Porto, 2009 © Adelina Silva

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa
Esmorece e cai no mar

Que perfeito coração
No meu peito bateria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração

Se um português marinheiro
Dos sete mares andarilho
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse
Se esse olhar de novo brilho
Ao meu olhar se enlaçasse

(…)

Se ao dizer adeus à vida
As aves todas do céu
Me dessem na despedida
O teu olhar derradeiro
Esse olhar que era só teu
Amor que foste o primeiro

Que perfeito coração
No meu peito morreria
Meu amor na tua mão
Nessa mão onde perfeito
Bateu o meu coração
Alexandre O'Neill

segunda-feira, 2 de março de 2009

Inscrição sobre as ondas

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

domingo, 1 de março de 2009

Quero também...

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
(...)
Levo-te a jantar num restaurante à média luz
Queres beber alguma coisa para quebrar os teus tabus?
Para mim não obrigado os meus já os quebrei
Abres-me o apetite nem parece que já jantei
Quase que aposto que temos o mesmo plano
Hoje vai ser a noite mais quente do ano
Tu és a causa desta minha doença rara
Não consigo tirar o sorriso parvo da cara
(...)
Letra: AC Firmino
Música: AC Firmino
Álbum: Preto no Branco - Boss AC

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Explicação da Vida

Porto, 2009 © Adelina Silva


Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

Natália Correia, in "Livro dos Amantes – I"

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Amantes

Vila Nova de Gaia, 2009 © Adelina Silva

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
Natália Correia, in "Livro dos Amantes - II"

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sonho da Vida

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Estou Vivo


(...)
É ver o copo, meio cheio, meio todo, falta pouco, é ver o lado de lá da mesma moeda
Planos traçamos mas depois adiamos, desistimos e a vida é sempre a mesma merda
Ninguém te ajuda quando tu mesmo não te ajudas e não fazes nada para mudar a tua vida
É bom sonhar mas é preciso acordar para concretizar e encontrar uma saída
Falo contigo e comigo e para todos, os que vivem o presente com medo do futuro
Nós não pedimos para nascer, já cá estamos, é viver porque amanhã é um tiro no escuro
É relativo, o teu drama mais terrível ao pé do drama do outro parece um filme para crianças
A vida dá-nos prendas e às vezes só damos valor quando essas prendas já não passam de lembranças
(...)
Moral da história: vive a vida aproveita porque a vida dá voltas e não avisa com antecedência


Letra: AC Firmino
Música: AC Firmino
Álbum: Preto no Branco - Boss AC

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Termina o Dia

Viana do Castelo, 2009 © Adelina Silva


(...)

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

Mário Cesariny, in "Poemas de Londres"

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Silêncio

Viana do Castelo, 2009 © Adelina Silva

o silêncio tem a espessura das papoulas murchas
e os objectos parecem aproximar-se do sono
inclinam-se para o lado onde se situam os moinhos as ermidas os bosques diluídos
o nítido ladrar dos cães
que horas serão para lá desta fotografia?
(...)
Al Berto, in «Trabalhos do Olhar», Trabalhos do Olhar, 1976/82

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Arrojos

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos "mignonnes" e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o lume das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

(...)
Cesário Verde

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sózinha em casa

Self-portrait, 2009

Despertou com a sensação que um peso que lhe comprimia o corpo e lhe tolhia os movimentos. Há algum tempo que sentia esse desconforto, dores que lhe invadiam o corpo e a alma. O quarto estava na penumbra. Depois de alguns momentos de hesitação levantou-se. Ao passar pelo espelho estancou. Mirou-se.
A casa estava em silêncio. Estava sozinha. Tinha tempo. Despiu-se. Olhou-se. Gostou do que viu. Olhou-se nos olhos. Ficou assim durante algum tempo. Pensava em tudo e em nada.
Aquelas dores não pareciam ser de causa física. Resolveu examinar-se mais minuciosamente. Sim, definitivamente, estava tudo normal.
Mas as dores continuavam. As dores continuam. Voltou a vestir-se. Resolveu tomar um banho de imersão. Água quente, sais de banho, música de fundo, bem baixinha… e ali ficou. Fechou os olhos.
Um je ne sais quoi de estranho pairava no ar! Olhou à volta e tudo lhe parecia vazio... um vazio cheio de silêncio... e de calma.... e de ausência.
Os momentos iniciais de desconforto transformaram-se de repente em apreensão. Não gostava da solidão. A solidão assustava-a, mas ao mesmo tempo convidava-a a fazer-lhe companhia... e à falta de melhor convite...
Piscava-lhe o olho, convidava-a para tomar café, para um passo de dança, oferecia-lhe um livro, dormia com ela...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Nós por Cá... tudo mal

Paços de Ferreira, 2009 Adelina Silva
Li, há uns tempos atrás, uma crónica do Hélder Pacheco, no Jornal de Notícias, intitulada "Preciosa Mediocridade".
Nela abordava um dos sete pecados capitais - a preguiça. Escrevia: "No 'síndrome do banco de dentro', vê-se nos autocarros, quem quer dar menos trabalho ao traseiro e poupar 50 cm de esforço". Falava a propósito das pessoas se sentarem na parte da coxia, em vez de se sentarem junto à janela, deixando esse lugar vago e as pessoas, que anseiam por esse lugar, constrangidas por pedirem para utilizá-lo. É bem verdade!
Deparei-me com a cena num Centro Comercial… havendo imensos lugares para aparcar o veículo, nada melhor do que estacionar em plena via e em sentido proibido… Claro que os restantes veículos que pretendiam passar, não tiveram outra solução do que engatar a marcha atrás. Só não se mete o carro dentro do centro, porque as portas que lhe dão acesso não o permitem. Como diria o Hélder Pacheco, para dar menos trabalho ao traseiro e poupar 50 cm de esforço, lixa-se a vida aos outros.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sonho de uma noite de Inverno

- Ainda demoras muito a ir para a cama? - perguntou ela.
Ele respondeu: - Não, não... estou quase a acabar.
- Então aguardo. Não tenho sono.
Dirigiu-se para o sofá. Deitou-se, aconchegou-se, enroscou-se, colocando-se em posição fetal. A chuva batia nas persianas, o vento assobiava. Concentrou-se nesses sons. Passaram-lhe muitas imagens pela cabeça. Sentiu um calor a percorrer-lhe o corpo. Adormeceu.
Todos na casa sabiam que, devido às insónias que tinha frequentemente, quando adormecia em caso algum a deveriam acordar. Ele assim fez. Chamou pelo seu nome, mas não obteve resposta. Deixou apenas uma luz acesa e saiu da sala.
Acordou. Abriu os olhos. A sala estava em silêncio apenas com uma luz acesa. Olhou para o relógio - eram 4:38h. Sentiu que tinha dormido uma eternidade. O corpo não estava dorido. Espreguiçou-se. Levantou-se e dirigiu-se para o quarto. Deitou-se em silêncio. Sentiu uns braços que a abraçavam enquanto lhe sussurravam ao ouvido: Estava à tua espera. Adoro-te! Amas-me?
Ainda não completamente desperta, ficou na dúvida se o que tinha ouvido fazia parte do sonho. Sentiu que a abraçavam. Sentiu a respiração quente no seu pescoço. Tudo aquilo se estava a passar de verdade.
- Tens dúvidas? – respondeu.
- Se não estivesses comigo, não estaria com mais ninguém! – disse-lhe, enquanto a abraçava.
Com os corpos entrelaçados, adormeceram.