quarta-feira, 8 de abril de 2009

Confissão

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


"Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. (...)
Vem ter comigo que eu não espero mais."
Pedro Paixão, in "O mundo é tudo o que acontece"

terça-feira, 7 de abril de 2009

Nostalgia

Apúlia, 2009 © Adelina Silva

"Por que é que fico tão triste quando recordo aqueles tempos? Será que é a nostalgia da felicidade passada – e eu fui feliz nas semanas seguintes, em que realmente trabalhei como um estúpido e consegui passar de ano e nos amámos, e que só mais tarde veio à luz, mas já existia então?
Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna quebradiço, revelando verdades amargas?"
Bernhard Schlink, in “O Leitor”

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Regresso

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Esta é a melhor atitude que podemos ter quando partimos. Apetecia-me, estava em forma; só mais tarde, durante a viagem, é que percebemos que são as maiores distâncias que inspiram as maiores ilusões e que viajar sozinho é ao mesmo tempo um prazer e um castigo".

Paul Theroux (& Bruce Chatwin), in “Regresso à Patagónia”

domingo, 5 de abril de 2009

A Isca

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.
John Donne, in "Poemas Eróticos"

sábado, 4 de abril de 2009

Confidência

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos


Mia Couto

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ocupado

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Resposta

Sevilla, 2009 © Adelina Silva


Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas.

Fiama Hasse Pais Brandão

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Outro Mundo

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

"A diferença de gerações não perdoa. Você, por exemplo, você não escreve para mim. Os autores de hoje têm uma visão do mundo muito diferente de nós. As viagens, que agora são muito facilitadas, transformam as pessoas. É outro mundo, este agora."

Luiz Pacheco
in "Pública", Entrevista,
Sarah Adamapoulos, 28.3.04

terça-feira, 31 de março de 2009

Janela Indiscreta

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

Rui Pires Cabral

segunda-feira, 30 de março de 2009

Faça-se Luz

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny

domingo, 29 de março de 2009

Destino

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas…
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou…
Tenho frio… Alabastro! A minha´alma parou…
E o seu corpo resvala a projectar estátuas…

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me
Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, 27 de março de 2009

Fim

Sevilla, 2009 © Adelina Silva


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Cecilia Meireles

quinta-feira, 26 de março de 2009

É assim...

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...
Ana Hatherly

quarta-feira, 25 de março de 2009

Um dia...

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.
Hoje não tenho mais tanta certeza disso.
Em breve cada um vai para seu lado, seja
pelo destino ou por algum
desentendimento, segue a sua vida.

Talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nas cartas
que trocaremos.
Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...
Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto
se tornar cada vez mais raro.

Vamo-nos perder no tempo...

Fernando Pessoa

terça-feira, 24 de março de 2009

Partida

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
(...)
Um dia partirei, muito diferente.
Enfim, aquela que jamais eu fora!
E os de Cá hão-de achar que vou contente.

Natércia Freire

domingo, 22 de março de 2009

Não há acasos

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, pois cada pessoa é única
e nenhuma substitui outra.
Cada um que passa em nossa vida,
passa sozinho, mas não vai só
nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos,
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas
não se encontram ao acaso.

Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 21 de março de 2009

Ausência

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
Quis dar em versos
a dor da tua ausência;
mas depois vi que vivias dentro de mim
eu é que tinha partido.

Isabel Meyrelles

sexta-feira, 20 de março de 2009

Auto-Retrato



Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia, in "Livro dos Amantes II"

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ch[G]ato

Lisboa, 2009 © Adelina Silva
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
(...)

Herberto Hélder

quarta-feira, 18 de março de 2009

Fuga de mim

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

(...)
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases como a lua...)

No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...


Cecília Meireles