quarta-feira, 15 de abril de 2009

À parte disso...

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Álvaro de Campos

terça-feira, 14 de abril de 2009

De onde és?

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

sem a moeda falsa do bem e do mal

Alexandre O´Neill

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tenho tempo para ti

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.



António Ramos Rosa

domingo, 12 de abril de 2009

Voo solitário

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
“Sou livre. Fecho os olhos e penso com toda a minha força na minha nova condição. Ainda que não esteja bem certo do que significa. Tudo o que sei é que estou completamente sozinho. Desterrado numa terra desconhecida, como um explorador solitário sem bússola nem mapa. Será isto a liberdade? Não sei, confesso, e às tantas desisto de pensar nisso.”

Haruki Murakami, in “Kafka à beira-mar”

sábado, 11 de abril de 2009

Mágoas antigas

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Contudo, quando estou magoado reaparecem as mágoas antigas; quando me sinto culpado, volta a culpabilidade de então; e no desejo e na nostalgia de hoje, esconde-se o desejo e a nostalgia de ontem. As camadas da nossa vida repousam tão perto umas das outras que no presente adivinhamos sempre o passado, que não está posto de parte e acabado, mas presente e vivido. Compreendo isto. Mas por vezes é quase suportável."

Bernhard Schlink, in “O Leitor”

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Livre

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Um dia, enquanto escutava o silêncio, ocorreu-me a dúvida sobre qual seria o efeito de eu gritar muito alto. Na altura pareceu-me uma terrível sugestão da imaginação, um “pensamento ilegítimo e duvidoso” que quase me provocou um arrepio, e fiquei ansioso por afastá-lo rapidamente do meu espírito. Mas, naqueles dias de solidão, era raro ocorrer qualquer pensamento à minha mente (…) O meu estado era de suspense e vigilância. Não tinha, contudo, qualquer expectativa de me deparar com uma aventura e sentia-me tão liberto de apreensões como me sinto agora, sentado neste quarto em Londres…"

W.H.Hudson, in "Idle Days in Patagonia", cit. in Chatwin, B. & Theroux, P., in "Regresso à Patagónia"

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Inconfesso Desejo

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo
Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos
Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos
Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Confissão

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


"Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. (...)
Vem ter comigo que eu não espero mais."
Pedro Paixão, in "O mundo é tudo o que acontece"

terça-feira, 7 de abril de 2009

Nostalgia

Apúlia, 2009 © Adelina Silva

"Por que é que fico tão triste quando recordo aqueles tempos? Será que é a nostalgia da felicidade passada – e eu fui feliz nas semanas seguintes, em que realmente trabalhei como um estúpido e consegui passar de ano e nos amámos, e que só mais tarde veio à luz, mas já existia então?
Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna quebradiço, revelando verdades amargas?"
Bernhard Schlink, in “O Leitor”

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Regresso

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Esta é a melhor atitude que podemos ter quando partimos. Apetecia-me, estava em forma; só mais tarde, durante a viagem, é que percebemos que são as maiores distâncias que inspiram as maiores ilusões e que viajar sozinho é ao mesmo tempo um prazer e um castigo".

Paul Theroux (& Bruce Chatwin), in “Regresso à Patagónia”

domingo, 5 de abril de 2009

A Isca

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Aí o rio correrá murmurando, aquecido
Mais por teus olhos do que pelo sol;
E aí os peixes enamorados ficarão
Suplicando a si próprios poder trair.

Quando tu nadares nesse banho de vida
Cada peixe, dos que todos os canais possuem,
Nadará amorosamente para ti,
Mais feliz por te apanhar, que tu a ele.

Se, sendo vista assim, fores censurada
Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás;
E se me for dada licença para olhar
Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti.
John Donne, in "Poemas Eróticos"

sábado, 4 de abril de 2009

Confidência

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos


Mia Couto

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Ocupado

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Resposta

Sevilla, 2009 © Adelina Silva


Ontem nasci sem fim, e alimentei-me
nesta mesa que em duas se reparte.
Uma aba no mar, vagante à toa,
trouxe os sabores de ondas, de orlas.
Outra aba na terra mostrou-me as pedras
polidas, úberes, gastas.

Fiama Hasse Pais Brandão

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Outro Mundo

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

"A diferença de gerações não perdoa. Você, por exemplo, você não escreve para mim. Os autores de hoje têm uma visão do mundo muito diferente de nós. As viagens, que agora são muito facilitadas, transformam as pessoas. É outro mundo, este agora."

Luiz Pacheco
in "Pública", Entrevista,
Sarah Adamapoulos, 28.3.04

terça-feira, 31 de março de 2009

Janela Indiscreta

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

Rui Pires Cabral

segunda-feira, 30 de março de 2009

Faça-se Luz

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny

domingo, 29 de março de 2009

Destino

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas…
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou…
Tenho frio… Alabastro! A minha´alma parou…
E o seu corpo resvala a projectar estátuas…

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me
Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, 27 de março de 2009

Fim

Sevilla, 2009 © Adelina Silva


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Cecilia Meireles

quinta-feira, 26 de março de 2009

É assim...

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me
queres?
quanto me
desejas?
ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...
Ana Hatherly