domingo, 17 de maio de 2009

Leitura de uma Onda

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Em resumo, não se pode observar uma onda sem ter em conta os aspectos complexos que concorrem para a sua formação e aqueles outros, igualmente complexos, a que essa mesma onda dá lugar. Estes aspectos variam continuamente, pelo que uma onda é sempre diferente de uma outra onda; mas também é verdade que cada onda é igual a uma outra onda, mesmo que não seja aquela que lhe é imediatamente contígua ou sucessiva; em resumo, existem formas e sequências que se repetem, ainda que irregularmente distribuídas no espaço e no tempo.(…)
A crista da onda que avança levanta-se num ponto determinado, mais do que nos outros, e é ali que começa a franjar-se de branco. Se isso acontece a uma certa distância da costa, a espuma tem tempo de se enrolar sobre si própria e de desaparecer de novo, como que engolida, para no mesmo momento tornar a envolver tudo, mas desta vez despontando de baixo, como um tapete branco que trepa pela praia acima para acolher a onda que está a chegar."

Italo Calvino, in “Palomar”

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Regresso ao cais

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
no marítimo lodo da fala fazem ninho
pássaros de sal com suas asas afiadas
sulcam
o susto de ficar sozinho
e a cabeça sibilante duma libélula esvoaça
na visão dourada do sonho o tempo circular dos dedos
no copo as mãos em movimento de esquecidos barcos
sobre vagas de poalha estelar onde naufragam
as palavras sem nexo e repetidos gestos

Al Berto

quinta-feira, 14 de maio de 2009

É assim porque é assim

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos – tinha olhar de quem tem uma asa ferida – distúrbio talvez da tiróide, olhos que perguntavam. A quem interrogava ela? a Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distracção aparece Deus. Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um “não” na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de uma melhor que se apresente e a diga, estou há anos esperando.
Enquanto isso as nuvens são brancas e o céu é todo azul. Para que tanto Deus. Por que não um pouco para os homens?
Clarice Lispector, in “A Hora da Estrela”


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pal(o)Mar

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


"O senhor Palomar procura agora limitar o seu campo de observação; se ele considerar um quadrado, digamos, de dez metros de mar, pode fazer um inventário completo de todos os movimentos de ondas que ali se repitam com variadas frequências, num dado intervalo de tempo. A dificuldade consiste em fixar os limites desse quadrado, porque se ele considerar, por exemplo, como o lado mais distante de si a linha mais proeminente de uma onda que avança, esta linha, ao aproximar-se dele e ao elevar-se, esconde aos seus olhos tudo aquilo que está por detrás dela; e eis que o espaço tomado em consideração se inverte e se reduz ao mesmo tempo."
Italo Calvino, in “Palomar”

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Olhares




Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

(...) "Reencontramo-nos a cada frase com todos os grandes temas mas enganamo-nos se os tentarmos organizar: coisas como o sentido da vida, a busca de uma transcendência, a morte e a passagem do tempo, o conflito das gerações e por aí fora, não têm mais importância do que pôr e tirar o chapéu, beber um copo de água, fumar um cigarro, dar uma gorjeta, colher uma flor ou coçar o nariz. A vida passa-se a todos os níveis e porventura mais nos que não conseguimos nomear. Ninguém vale mais que o outro, tudo conta e de tudo depende cada destino. Cada silêncio tanto como o que se diz. O infinitamente grande só se vê com um microscópio. Porque a vida é assim. Mas como se representa isto? Se a vida mesmo não é a ficção que no palco tentamos reconstruir com uma imagem? (...)"

sábado, 9 de maio de 2009

Eterna agonia

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem

Cruzeiro Seixas

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Ao sol

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Um pouco mais a Sul
há ventos de areia
cercando a cidade de cabeleiras protectoras,
por todo o lado corre um cheiro intenso a peixe.
Esta é a terra dos cabeças-de-pungo!
Entre cacimbo que passa e vento que sopra
o tempo espreguiça-se sobre dunas.
Há peixe seco e cheiro intenso de peixe
secando escalado ao sol e ao sal do deserto.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Onde estás?

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


atento o olhar
a este quase silêncio
de peculiar ausência

João-Maria Nabais

domingo, 3 de maio de 2009

O mar à janela

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Sonho naufragado

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Meireles

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Retrato

Paços de Ferreira, 2009 © Adelina Silva

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Cecília Meireles

terça-feira, 28 de abril de 2009

Saudades de quem nunca fui

Paços de Ferreira, 2009 © Adelina Silva
Tinha o vento contra a cara e as nuvens e as ondas do mar por conta própria. Sofria muito de amores e não havia amor que durasse que não magoasse. Jurava-me que um dia viria a não ser eu, sem saber o que dizia, sem antecipar a ilusão. (…) E agora a dor de ser já quem se não queria, ultrapassada a irremediável distância que vai do desejo ao seu fim, sem nada mais poder adivinhar. Saudades de mim, de quem nunca fui.


Pedro Paixão, in "Quase Gosto da Vida que Tenho"

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Tempestade

Porto, 2009 © Adelina Silva

“Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direcção. Tu mudas de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de ti. Voltas a mudar de direcção, mas a tempestade persegue-te, seguindo no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade és tu. Algo que está dentro de ti.”

Haruki Murakami, in “Kafka à beira-mar”

domingo, 26 de abril de 2009

Olha, amor

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


Ainda bem que deixaste a porta aberta ao silêncio.
Ainda bem que não nos tornamos cúmplices da indiferença.

Foi reconfortante aprender a precisar de ti
Dizer “amor” tardiamente, partir para a aventura dos sentidos.


Leonor Bettencourt Bernardo

sábado, 25 de abril de 2009

Estou capaz de ...

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Hoje! Bem, hoje ninguém se meta comigo!
Estou dorido, ofendido e perdido!
Hoje, não quero trabalhar nem conversar.
Estou emperdenido;
Malcriado e aborrecido.
Estou capaz de matar.

David Santos

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Porquê eu?

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Já há muito que procuro
Procuro o quê?
Procuro Procuro
Não sei
Ando aos tropeções às apalpadelas
Já não sei o que pensar
Serei só eu a sofrer?
Parecem tão distantes
Não sinto ninguém
Mas continuo nesta vida
No fim do caminho
Saberei ou serei apenas mais uma?


Isabel Romano Colaço

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Lonjura

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Esta é a viagem forjada no espaço,
No vácuo…
Formada da sombra de uma estrela extinta
Antes do tempo sequer haver.
Viagem da lonjura, da matéria, da perdição.

Estas são as palavras caladas,
As palavras embargadas pela própria solidão
Onde apenas o silêncio permanece.

Este é o poema interminável,
Cinzelado a golpes de ausência
Na ferocidade do silêncio.
Pedro Ferreira

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Espera gravada

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Num silêncio que não nasce nem se põe
estava ali o meu amor à minha espera.
E entregar-me logo a ela, quem me dera, quem me dera…

Soam os meus lamentos pela vedação do seu silêncio
cheio de amor a esvair-se por entre as macieiras
cujas flores murmuram o meu nome ao seu ouvido

Numa ânsia doce no sabor da maçã
tornando-se ecoante o meu pedido,
para que me queiras, para que me queiras.

João António Peixoto

terça-feira, 21 de abril de 2009

A nossa história

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

No traço que te desenho,
na frase de que és poema,
na canção que te segredo
és o alvo que não tenho
e sem saber de outro tema
mais não somos que enredo.

Luís Telésforo

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Não tenhas pressa

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Fica. Não adormeças. Não apagues a luz, sabes que tenho tanto medo do escuro.
Não me acordes cedo. Deixa-me aconchegar com carinho no teu ombro no começo de um dia sem pressa.
Fica, não esperes que o dia se esconda, se ensombre, se acobarde, se revolte.
Não chames as dúvidas, afaga-me o cabelo, os sentidos…
Desperta-me apenas de um possível pesadelo… Tenho tantos.
(…)
Não feches a janela, deixa-me continuar a beber o azul tórrido de uma lua húmida que se arrasta dengosa no final de mais um dia cansado do nada.
Fica comigo.
Até que o desejo adormeça
Até que a lua se canse de sorrir
Até que os nossos corpos se sintam dormentes
Até que o nosso amor dure
Até que seja possível acreditar no nosso desassossego
Até que deixe de sentir esta vontade imensa de estar contigo
Até que o fim se deixe anunciar.

Fica comigo.
Não me acordes, não me despertes.
Deixa que o tempo se escape, que voe, com calma.
Deixa que o nosso silêncio acabe por ser tudo
Deixa muito espaço para o amor que iremos fazer no próximo minuto.

Fica, sem pressas.

O amor vive apenas de pequenos instantes.

Leonor Bettencourt Bernardo