quinta-feira, 25 de junho de 2009

És especial!!

Salamanca, 2009 © Adelina Silva
[porque se não fosse este homem eu nunca me entregaria à poesia, porque quando me sentei no seu colo ele me disse "Tu és diferente mas lembra-te, é na diferença que reside a igualdade. És especial!", pela sua boca eu aprendi a ser-me poesia]
Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de junho de 2009

A espera

Madrid, 2009 © Adelina Silva

... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Dor

Salamanca, 2009 © Adelina Silva


Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo para o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei. Uma dor de cada vez basta.

Pedro Paixão, in "Saudades de Nova Iorque"

domingo, 21 de junho de 2009

E então...

Ávila, 2009 © Adelina Silva

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Memória

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Segredo

Salamanca, 2009 © Adelina Silva

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


Miguel Torga

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Carpe Diem

Madrid, 2009 © Adelina Silva
Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio - nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mãos

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias de desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
Al Berto

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Chopin

Gondomar, 2009 © Adelina Silva


Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem Aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas
Lusco-fusco... morcego a palpitar
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...

Mansinho... Roça os dedos pelo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim da escuridão da sala...

Florbela Espanca

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Teia de Aranha


Gondomar, 2009 © Adelina Silva

Teci durante a noite a teia astuciosa
Dum poema.
Armei o laço ao sol que há-de nascer.
Rede frágil de versos,
É nela que o meu sono se futura
Eterno e natural,
Embalado na própria sepultura.
Vens ou não vens agora, astro real,
Doirar os fios desta baba impura?

Miguel Torga


Gondomar, 2009 © Adelina Silva

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Como eu não possuo

Porto, 2009 © Adelina Silva

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu.
Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O meu interior

Sevilha, 2009 © Adelina Silva
o olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
-Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.
Herberto Hélder

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sabem quem eu sou?

Braga, 2009 © Adelina Silva
À minha frente, um grupo de mulheres de faces, testa e nariz besuntados com uma pasta amarela faziam-me lembrar índias em pé de guerra. Lançavam longas baforadas daquelas piriscas verdes fedorentas.
Eu era, no mínimo, um bom palmo mais alta do que elas, o que também acontecia em relação aos homens. Magros sem serem escanzelados, possuíam a mesma elegância e leveza de movimentos que eu sempre admirara no meu pai. Os meus sessenta quilos de peso e um metro e setenta e seis de altura faziam-me sentir gorda e pesada.
O modo como me olhavam, fixando-me o rosto e os olhos, sem me evitar, e sorrindo, era o pior de tudo. Um sorriso que eu não conseguia definir. Como um sorriso pode ser ameaçador!
Outros cumprimentavam-me com um aceno de cabeça. Saberiam quem eu era? Estariam todos à minha espera, como U Ba? Decidi fazer de conta que os não via. Não sabia como corresponder ao seu cumprimento e, de olhos postos numa longínqua meta imaginária, desci a rua principal o mais depressa que pude.

Jan-Philipp Sendker, in “Na Birmânia deixei o meu coração”

sábado, 23 de maio de 2009

Mágoa sem praia

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A tristeza matou os peixes
que nadavam nos teus olhos
envenenou-os de um fel sem nome
numa mágoa sem praia ou areia
onde estender o teu sorriso antigo
agora branco de uma cal egípcia
que te pinta o rosto
e te seca os veios.
José Torres

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O Modelo dos Modelos

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
"A construção de um modelo era portanto para ele um milagre de equilíbrio entre os princípios (deixados na sombra) e a experiência (imperceptível), mas o resultado tinha de ter uma consistência muito mais sólida do que aqueles e do que esta. Num modelo bem construído, de facto, cada detalhe deve ser condicionado pelos outros, pelo que tudo se mantém com absoluta coerência, tal como num mecanismo onde, se uma das engrenagens pára, todo o conjunto pára. O modelo é por definição aquilo em que não há nada a mudar, aquilo que funciona na perfeição; ao passo que, em relação à realidade, podemos facilmente verificar que ela não funciona, que se espapaça por todos os lados; portanto, nada mais resta do que obrigá-la a tomar a forma do modelo, a bem ou a mal."

Italo Calvino, in “Palomar”

terça-feira, 19 de maio de 2009

Solidão

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A solidão é sempre fundamento
da liberdade. Mas também do espaço
por onde se desenvolve o alargar do tempo
à volta da atenção estrita do acto.
Húmus, e alma, é a solidão. E vento,
quando da imóvel solenidade clama
o mudo susto do grito, ainda suspenso
do nome que vai ser sua prisão pensada.
A menos que esse nome seja estremecimento
— fruto de solidão compenetrada
que, por dentro da sombra, nomeia o movimento
de cada corpo entrando por sua luz sagrada.


Fernando Echevarría, in "Sobre os Mortos"

domingo, 17 de maio de 2009

Leitura de uma Onda

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

"Em resumo, não se pode observar uma onda sem ter em conta os aspectos complexos que concorrem para a sua formação e aqueles outros, igualmente complexos, a que essa mesma onda dá lugar. Estes aspectos variam continuamente, pelo que uma onda é sempre diferente de uma outra onda; mas também é verdade que cada onda é igual a uma outra onda, mesmo que não seja aquela que lhe é imediatamente contígua ou sucessiva; em resumo, existem formas e sequências que se repetem, ainda que irregularmente distribuídas no espaço e no tempo.(…)
A crista da onda que avança levanta-se num ponto determinado, mais do que nos outros, e é ali que começa a franjar-se de branco. Se isso acontece a uma certa distância da costa, a espuma tem tempo de se enrolar sobre si própria e de desaparecer de novo, como que engolida, para no mesmo momento tornar a envolver tudo, mas desta vez despontando de baixo, como um tapete branco que trepa pela praia acima para acolher a onda que está a chegar."

Italo Calvino, in “Palomar”

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Regresso ao cais

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
no marítimo lodo da fala fazem ninho
pássaros de sal com suas asas afiadas
sulcam
o susto de ficar sozinho
e a cabeça sibilante duma libélula esvoaça
na visão dourada do sonho o tempo circular dos dedos
no copo as mãos em movimento de esquecidos barcos
sobre vagas de poalha estelar onde naufragam
as palavras sem nexo e repetidos gestos

Al Berto

quinta-feira, 14 de maio de 2009

É assim porque é assim

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Viu ainda dois olhos enormes, redondos, saltados e interrogativos – tinha olhar de quem tem uma asa ferida – distúrbio talvez da tiróide, olhos que perguntavam. A quem interrogava ela? a Deus? Ela não pensava em Deus, Deus não pensava nela. Deus é de quem conseguir pegá-lo. Na distracção aparece Deus. Não fazia perguntas. Adivinhava que não há respostas. Era lá tola de perguntar? E de receber um “não” na cara? Talvez a pergunta vazia fosse apenas para que um dia alguém não viesse a dizer que ela nem ao menos havia perguntado. Por falta de quem lhe respondesse ela mesma parecia se ter respondido: é assim porque é assim. Existe no mundo outra resposta? Se alguém sabe de uma melhor que se apresente e a diga, estou há anos esperando.
Enquanto isso as nuvens são brancas e o céu é todo azul. Para que tanto Deus. Por que não um pouco para os homens?
Clarice Lispector, in “A Hora da Estrela”


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Pal(o)Mar

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva


"O senhor Palomar procura agora limitar o seu campo de observação; se ele considerar um quadrado, digamos, de dez metros de mar, pode fazer um inventário completo de todos os movimentos de ondas que ali se repitam com variadas frequências, num dado intervalo de tempo. A dificuldade consiste em fixar os limites desse quadrado, porque se ele considerar, por exemplo, como o lado mais distante de si a linha mais proeminente de uma onda que avança, esta linha, ao aproximar-se dele e ao elevar-se, esconde aos seus olhos tudo aquilo que está por detrás dela; e eis que o espaço tomado em consideração se inverte e se reduz ao mesmo tempo."
Italo Calvino, in “Palomar”