segunda-feira, 13 de julho de 2009

A minha certeza

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Creio que foi mesmo aí, mesmo agora, que nos encontrámos nesse lugar um pouco antes das palavras. (...) Eu amo lagos e tu amas lagos. Tu amas correr o risco de não alcançares o teu destino. Eu amo a tua ansiedade. Os teus olhos raiados de azul e verde. O brilho dos astros reflectido na tua face sem máscara. Amo-te antes de te amar e por isso o que nos une por não ter princípio não terá fim. As almas são imortais. É a única certeza.

Pedro Paixão

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A minha Fonte

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Imortal

Madrid, 2009 © Adelina Silva

"Desejei-te ontem, demais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos. Amo-te demais. (...) Não te peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar com pesadelos. Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, meu príncipe das trevas, lindo. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. Eu não concordo. Desculpa-me príncipe, o ter-te acordado hoje tão cedo. (...) Tu sabes que eu sou uma apaixonada. Perdoa-me. Diz qualquer coisa logo que possas. Sinto saudades, é só. Não existe corpo, não existe face, não existe sexo e existe tudo isso.
Só o amor é imortal, acredita."



Pedro Paixão

domingo, 5 de julho de 2009

Hora Absurda

Salamanca, 2009 © Adelina Silva

(…)
E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque —
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...


Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...

(…)

Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dança com Sapatos de Ferro

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Era uma vez uma princesinha muito bonita, que estava a contemplar num espelho os seus lindos cabelos loiros, quando, de repente, lhe apareceu uma velha muito feia que lhe pediu que a deixasse pentear, pois nunca vira cabelos tão lindos. A princesinha, que teve muito medo da velha, não quis. Então a velha rogou-lhe uma praga – que tu tenhas de ir dançar todas as noites com o Diabo no Inferno, até gastares sete pares de sapatos de ferro. E nessa noite, quando a princesinha dormia, ao dar a última badalada da meia noite, foi levada pelo Diabo.

Ruy Coelho

[Com coreografia e interpretação de José de Almada Negreiros, Diabo, e Maria Mello Brayner, Princesa, foi apresentada no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa a 10 de Abril de 1918, três anos após a sua primeira representação (no palácio dos marqueses de Castelo-Melhor, na mesma cidade), A Princesa dos Sapatos de Ferro, obra composta em Berlim por Ruy Coelho, em 1912. O argumento é do próprio Compositor, baseado num conto popular.]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Reencontro

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Estou nervoso, é a primeira vez que a revejo. Sem que venha a propósito, conto segredos, faço confidências de que logo me arrependo. A distância física é também uma distância, um afastamento interior. Falo de mim como quem fala de uma outra pessoa que julga conhecer bem, ou pelo menos, isso presume. Não creio que G. tenha acreditado ou mesmo entendido o que lhe quis dizer. Por isso, a partir de certa altura, os segredos transformam-se em pequenas mentiras, em efabulações. Fizemos o que é mais habitual duas pessoas fazerem, preenchemos todo o tempo com palavras, enquanto os corpos de dois animais, frente a frente, se alimentavam.

Pedro Paixão

sábado, 27 de junho de 2009

Incerteza

Madrid, 2009 © Adelina Silva


É o lado indomável da vida que nos transporta. O não saber bem o que se espera, o não poder saber o que nos espera, a expectativa confundindo o desejo. Esperar que aconteça alguma coisa de qualquer maneira. Ter confiança em reconhecer isso que se procura, quando isso for encontrado. Dar atenção aos acasos que mudam tudo.
Pedro Paixão

quinta-feira, 25 de junho de 2009

És especial!!

Salamanca, 2009 © Adelina Silva
[porque se não fosse este homem eu nunca me entregaria à poesia, porque quando me sentei no seu colo ele me disse "Tu és diferente mas lembra-te, é na diferença que reside a igualdade. És especial!", pela sua boca eu aprendi a ser-me poesia]
Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de junho de 2009

A espera

Madrid, 2009 © Adelina Silva

... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Dor

Salamanca, 2009 © Adelina Silva


Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo para o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei. Uma dor de cada vez basta.

Pedro Paixão, in "Saudades de Nova Iorque"

domingo, 21 de junho de 2009

E então...

Ávila, 2009 © Adelina Silva

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Memória

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Segredo

Salamanca, 2009 © Adelina Silva

Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.

Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...


Miguel Torga

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Carpe Diem

Madrid, 2009 © Adelina Silva
Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio - nem esse olhar
que me oferece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Mãos

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias de desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
Al Berto

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Chopin

Gondomar, 2009 © Adelina Silva


Não se acende hoje a luz... Todo o luar
Fique lá fora. Bem Aparecidas
As estrelas miudinhas, dando no ar
As voltas dum cordão de margaridas!

Entram falenas meio entontecidas
Lusco-fusco... morcego a palpitar
Passa... torna a passar... torna a passar...
As coisas têm o ar de adormecidas...

Mansinho... Roça os dedos pelo teclado,
No vago arfar que tudo alteia e doira,
Alma, Sacrário de Almas, meu Amado

E, enquanto o piano a doce queixa exala,
Divina e triste, a grande sombra loira
Vem para mim da escuridão da sala...

Florbela Espanca

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Teia de Aranha


Gondomar, 2009 © Adelina Silva

Teci durante a noite a teia astuciosa
Dum poema.
Armei o laço ao sol que há-de nascer.
Rede frágil de versos,
É nela que o meu sono se futura
Eterno e natural,
Embalado na própria sepultura.
Vens ou não vens agora, astro real,
Doirar os fios desta baba impura?

Miguel Torga


Gondomar, 2009 © Adelina Silva

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Como eu não possuo

Porto, 2009 © Adelina Silva

Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu.
Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Mário de Sá-Carneiro

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O meu interior

Sevilha, 2009 © Adelina Silva
o olhar é um pensamento.
Tudo assalta tudo, e eu sou a imagem de tudo.
O dia roda o dorso e mostra as queimaduras,
a luz cambaleia,
a beleza é ameaçadora.
-Não posso escrever mais alto.
Transmitem-se, interiores, as formas.
Herberto Hélder

terça-feira, 26 de maio de 2009

Sabem quem eu sou?

Braga, 2009 © Adelina Silva
À minha frente, um grupo de mulheres de faces, testa e nariz besuntados com uma pasta amarela faziam-me lembrar índias em pé de guerra. Lançavam longas baforadas daquelas piriscas verdes fedorentas.
Eu era, no mínimo, um bom palmo mais alta do que elas, o que também acontecia em relação aos homens. Magros sem serem escanzelados, possuíam a mesma elegância e leveza de movimentos que eu sempre admirara no meu pai. Os meus sessenta quilos de peso e um metro e setenta e seis de altura faziam-me sentir gorda e pesada.
O modo como me olhavam, fixando-me o rosto e os olhos, sem me evitar, e sorrindo, era o pior de tudo. Um sorriso que eu não conseguia definir. Como um sorriso pode ser ameaçador!
Outros cumprimentavam-me com um aceno de cabeça. Saberiam quem eu era? Estariam todos à minha espera, como U Ba? Decidi fazer de conta que os não via. Não sabia como corresponder ao seu cumprimento e, de olhos postos numa longínqua meta imaginária, desci a rua principal o mais depressa que pude.

Jan-Philipp Sendker, in “Na Birmânia deixei o meu coração”