domingo, 16 de agosto de 2009

A voz do silêncio

Magaluff/Palmanova, 2009 © Adelina Silva

A pessoa que sou é única, limitada a um nascer e a um morrer, presente a si mesma e que só à sua face é verdadeira, é autêntica, decide em verdade a autenticidade de tudo quanto realizar. Assim a sua solidão, que persiste sempre talvez como pano de fundo em toda a comunicação, em toda a comunhão, não é 'isolamento'. Porque o isolamento implica um corte com os outros; a solidão implica apenas que toda a voz que a exprima não é puramente uma voz da rua, mas uma voz que ressoa no silêncio final, uma voz que fala do mais fundo de si, que está certa entre os homens como em face do homem só. O isolamento corta com os homens: a solidão não corta com o homem. A voz da solidão difere da voz fácil da fraternidade fácil em ser mais profunda e em estar prevenida.

Vergílio Ferreira, in 'Espaço do Invisivel I'

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Tango

Magaluff, 2009 © Adelina Silva


E depois as mãos soltas e os dedos a desbravarem os secretos caminhos entre as linhas da vida nas palmas das mãos e os braços e os antebraços nus a acompanharem a dança. São precisos dois para dançarem o tango. Não era uma valsa, não. Era um tango. Um tango argentino dançado na perfeição pelas mãos de dois desconhecidos. Sem palavra alguma. Nenhuma era precisa.

Pedro Paixão, in "Mãos"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Chave da vida

Madrid, 2009 © Adelina Silva


Um homem é dotado de livre arbítrio e de três maneiras: em primeiro lugar, era livre quando quis esta vida; agora não pode evidentemente rescindi-la, pois ele não é o que a queria outrora, excepto na medida em que completa a sua vontade de outrora, vivendo.
Em segundo lugar, é livre pelo facto de poder escolher o caminho desta vida e a maneira de o percorrer.
Em terceiro lugar, é livre pelo facto de na qualidade daquele que vier a ser de novo um dia, ter a vontade de se deixar ir custe o que custar através da vida e de chegar assim a ele próprio e isso por um caminho que pode sem dúvida escolher, mas que, em todo o caso, forma um labirinto tão complicado que toca nos menores recantos desta vida.
São esses os três aspectos do livre arbítrio que, por se oferecerem todos ao mesmo tempo formam apenas um e de tal modo que não há lugar para um arbítrio, quer seja livre ou servo.



Franz Kafka, in "Meditações"

domingo, 9 de agosto de 2009

Olhar, ver e chorar

Magaluff/Palma Nova, 2009 © Adelina Silva

Notável criatura são os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifício da Providência! Eles são a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. (...) Todos os sentidos do homem têm um só ofício; só os olhos têm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, só os olhos têm dois ofícios: Ver e Chorar. Estes serão os dois pólos do nosso discurso. Ninguém haverá (se tem entendimento) que não deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potência o ofício de chorar, e o de ver? O ver é a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, não há gosto, porque o sabor de todos os gostos é o ver; pelo contrário, o chorar é o estilado da dor, o sangue da alma, a tinta do coração, o fel da vida, o líquido do sentimento. Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários, ver e chorar? A razão e a experiência é esta. Ajuntou a Natureza a vista e as lágrimas, porque as lágrimas são consequência da vista; ajuntou a Providência o chorar com o ver, porque o ver é a causa do chorar. Sabeis porque choram os olhos? Porque vêem.

Padre António Vieira, in "Sermões"

sábado, 25 de julho de 2009

O tempo é um artista

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A ideia de que somente é belo o que é novo e jovem envenena as nossas relações com o passado e com o nosso próprio futuro. Impede-nos de compreender as nossas raízes e as maiores obras da nossa cultura e das outras culturas. Faz-nos também recear o que está à nossa frente e leva muita gente a fugir à realidade.

Walter Kaufmann, in 'O Tempo é um Artista'

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Projectar o Passado

Ciudad Rodrigo, 2009 © Adelina Silva


O presente estaria cheio de todos os futuros, se já o passado não projectasse sobre ele uma história. Mas, infelizmente, um único passado propõe um único futuro - projecta-o diante de nós como um ponto infinito sobre o espaço.

André Gide, in 'Os Frutos da Terra'



terça-feira, 21 de julho de 2009

A Primeira de Todas as Paixões

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Quando o primeiro contacto com algum objecto nos surpreende e o consideramos novo ou muito diferente do que conhecíamos antes ou então do que supunhamos que ele devia ser, isso faz que o admiremos e fiquemos espantados com ele. E como tal coisa pode acontecer antes que saibamos de alguma forma se esse objecto nos é conveniente ou não, a admiração parece-me ser a primeira de todas as paixões. E ela não tem contrário, porque, se o objecto que se apresenta nada tiver em si que nos surpreenda, não somos emocionados por ele e consideramo-lo sem paixão.

René Descartes, in "As Paixões da Alma"

sábado, 18 de julho de 2009

Ser Diferente

Madrid, 2009 © Adelina Silva

A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.

Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Por Entre os Sons da Música

Ávila, 2009 © Adelina Silva

Por entre os sons da música, ao ouvido
como a uma porta que ficou entreaberta
o que se me revela em ter sentido
é o que por essa música encoberta

acena em vão do outro lado dela
e eu sinto como a voz que respondesse
ao que em mim não chamou nem está nela,
porque é só o desejar que aí batesse.

Vergílio Ferreira

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Schiuuuuu.....

Salamanca, 2009 © Adelina Silva

Dever ser silenciado é bem mais do que deixar de falar, ficar calado. É também aceitar, obedecer. Uma interdição de falar do que não se pode falar e um dever de obedecer, de aceitar. Estranha é a nossa situação. Não só não se consegue falar do que mais importa, como ao falar o humano sofre uma experiência de queda no mundo, em que o espírito sai diminuído. A conversa distrai. Só o silêncio fortalece o espírito, o único milagre.
Pedro Paixão

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A minha certeza

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Creio que foi mesmo aí, mesmo agora, que nos encontrámos nesse lugar um pouco antes das palavras. (...) Eu amo lagos e tu amas lagos. Tu amas correr o risco de não alcançares o teu destino. Eu amo a tua ansiedade. Os teus olhos raiados de azul e verde. O brilho dos astros reflectido na tua face sem máscara. Amo-te antes de te amar e por isso o que nos une por não ter princípio não terá fim. As almas são imortais. É a única certeza.

Pedro Paixão

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A minha Fonte

Sevilla, 2009 © Adelina Silva

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Imortal

Madrid, 2009 © Adelina Silva

"Desejei-te ontem, demais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos. Amo-te demais. (...) Não te peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar com pesadelos. Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, meu príncipe das trevas, lindo. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. Eu não concordo. Desculpa-me príncipe, o ter-te acordado hoje tão cedo. (...) Tu sabes que eu sou uma apaixonada. Perdoa-me. Diz qualquer coisa logo que possas. Sinto saudades, é só. Não existe corpo, não existe face, não existe sexo e existe tudo isso.
Só o amor é imortal, acredita."



Pedro Paixão

domingo, 5 de julho de 2009

Hora Absurda

Salamanca, 2009 © Adelina Silva

(…)
E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque —
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...


Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...

(…)

Fernando Pessoa

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dança com Sapatos de Ferro

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Era uma vez uma princesinha muito bonita, que estava a contemplar num espelho os seus lindos cabelos loiros, quando, de repente, lhe apareceu uma velha muito feia que lhe pediu que a deixasse pentear, pois nunca vira cabelos tão lindos. A princesinha, que teve muito medo da velha, não quis. Então a velha rogou-lhe uma praga – que tu tenhas de ir dançar todas as noites com o Diabo no Inferno, até gastares sete pares de sapatos de ferro. E nessa noite, quando a princesinha dormia, ao dar a última badalada da meia noite, foi levada pelo Diabo.

Ruy Coelho

[Com coreografia e interpretação de José de Almada Negreiros, Diabo, e Maria Mello Brayner, Princesa, foi apresentada no Teatro Nacional de S. Carlos, em Lisboa a 10 de Abril de 1918, três anos após a sua primeira representação (no palácio dos marqueses de Castelo-Melhor, na mesma cidade), A Princesa dos Sapatos de Ferro, obra composta em Berlim por Ruy Coelho, em 1912. O argumento é do próprio Compositor, baseado num conto popular.]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Reencontro

Madrid, 2009 © Adelina Silva

Estou nervoso, é a primeira vez que a revejo. Sem que venha a propósito, conto segredos, faço confidências de que logo me arrependo. A distância física é também uma distância, um afastamento interior. Falo de mim como quem fala de uma outra pessoa que julga conhecer bem, ou pelo menos, isso presume. Não creio que G. tenha acreditado ou mesmo entendido o que lhe quis dizer. Por isso, a partir de certa altura, os segredos transformam-se em pequenas mentiras, em efabulações. Fizemos o que é mais habitual duas pessoas fazerem, preenchemos todo o tempo com palavras, enquanto os corpos de dois animais, frente a frente, se alimentavam.

Pedro Paixão

sábado, 27 de junho de 2009

Incerteza

Madrid, 2009 © Adelina Silva


É o lado indomável da vida que nos transporta. O não saber bem o que se espera, o não poder saber o que nos espera, a expectativa confundindo o desejo. Esperar que aconteça alguma coisa de qualquer maneira. Ter confiança em reconhecer isso que se procura, quando isso for encontrado. Dar atenção aos acasos que mudam tudo.
Pedro Paixão

quinta-feira, 25 de junho de 2009

És especial!!

Salamanca, 2009 © Adelina Silva
[porque se não fosse este homem eu nunca me entregaria à poesia, porque quando me sentei no seu colo ele me disse "Tu és diferente mas lembra-te, é na diferença que reside a igualdade. És especial!", pela sua boca eu aprendi a ser-me poesia]
Eugénio de Andrade

terça-feira, 23 de junho de 2009

A espera

Madrid, 2009 © Adelina Silva

... uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Dor

Salamanca, 2009 © Adelina Silva


Apago todas as mensagens. Menos as tuas. Guardo a tua voz em pequenas doses e, dia sim dia não, ouço-as todas de seguida. Sinto-me demasiado incapaz para falar contigo para o que quer que seja. Não sei onde estás. Não quero saber. Tenho medo de saber mais do que sei. Uma dor de cada vez basta.

Pedro Paixão, in "Saudades de Nova Iorque"