domingo, 22 de novembro de 2009

Bonsoir! C'est la folie!

Madrid, 2009 © Adelina Silva


Bonsoir
Ton véhicule n'a pas l'air d'avoir de passager
Peux-tu, Veux tu me recevoir
Sans trop te déranger?
(...)
Et si parfois l'on fait des confessions
A qui les raconter - même le bon dieu nous a laisse tomber
Un autre endroit, une autre vie
Eh oui, c'est une autre histoire
Mais a qui tout raconter?
Chez les ombres de la nuit?
(...)
Extracto da letra dos Stranglers - La Folie

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Acto de Amor

Sevilha, 2009 © Adelina Silva



Da janela avista-se uma linha verde de ervas, rasteiras e macias, tão macias que podemos imaginar um corpo nu deitado sobre elas, entregando-se, num acto amoroso, à natureza que o gerou e completa. Cresce sobre essa linha uma árvore ainda jovem, com o tronco rasgado em dois braços abertos, erguidos para o céu. Pelas mãos de ambos chega-nos aos ouvidos uma melodia breve, um rumor elemental que nos fere os sentidos e ecoa pelas cavidades interiores do corpo, como um fio de água límpida que corre numa fonte, bem perto dali.
Há ainda uma casa sobre a linha verde de erva macia. É castanha, da cor da terra que não se vê da janela. Nasceu dos trabalhos da mão de ambos os poetas, a árvore e o jovem que há pouco, debaixo dela, se deitava com a erva. Cada uma das pedras que a erguem na paisagem, diante dos nossos olhos, é um som cristalino e puro. É nela que o poeta regista os acordes do solene acto de amor que vive com a natureza. É nela que se concentra o vivo lume dos cíclicos exercícios da sua mão, que colhe os frutos da árvore, e da sua boca, que canta o seu sabor.
Circulam por entre as linhas desta mínima visão, algumas das mais ternas razões que poderemos ter, neste Inverno, para ler a poesia de Eugénio de Andrade. Porque dentro de casa está o fogo, o vivo lume que nos aquece as mãos. Entremos.
José Pedro Ferreira,
in Eugénio de Andrade – Textos e Pretextos, Inverno 2004, nº 5

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sonidos de calle

Sevilha, 2009 © Adelina Silva
Ainda tenho em mente a imagem magra, franzina, uma bengala na mão, quem sabe se por vaidade ou se por vontade...
Ainda tenho em mente, a figura esbelta, rebelde...
passando na rua sem saída onde habitávamos,
nas noites de solidão.
Ainda tenho em mente
o sorriso cordial, sempre presente, quando passavas
p'lo grupo de miúdos de guitarra na mão e canções idealistas
nessas noites de Verão.
Ainda tenho em mente
"lá vai o Mário..." e os "boas noites!"
e o sorriso sempre presente
Ainda tenho em mente
sempre presente
a figura magra, franzina,
voz calma e serena
quando conversávamos, por momentos,
antes de ires procurar a tua inspiração
nessas noites de Verão.
Mário Cesariny
Feliz aniversário Mário

sábado, 14 de novembro de 2009

Maluda

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Esta janela já não tem enredos,
ninguém por ela espreita, ninguém espera
vê-la semicerrar, semiabrir
o olhoblíquo do ciúme;

nem por ela passarão as trajectórias
do suicida e do escalador.
Romeu morreu e a doce expectação
de Julieta é comprimido sono.

Sequer uns braços nus de janeleira,
hasteada brancura, nela podem
demorar o gozo dum voyeur,
que esta janela já não serve para...

Esta janela é uma finta, é uma jogada
no xadrez de quem a pinta e assina.
Alexandre O'Neill

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Vazio

Porto, 2009 © Adelina Silva
Para além de outro oceano
(...)
Uma sala grande e vazia é uma alma silenciosa
E as correntes de ar que levantam pó são os pensamentos
(...)
Fernando Pessoa


domingo, 8 de novembro de 2009

Manual de Boas Maneiras

Porto, 2009 © Adelina Silva

A maneira moderna de cuspir — ou melhor, de não cuspir —também se define vagarosamente. Alguns manuais da Idade Média instam as crianças a não cuspirem na mesa, à mesa nem na bacia. Erasmo, depois de afirmar que “é mal educado engolir a saliva”, adverte que devemos afastar-nos dos outros para expeli-la no chão e, se isto não for possível, usar um lenço. Com Giovanni della Casa, a proposta é repressiva: o homem deve evitar cuspir o quanto for possível: bom mesmo seria fazer como certos povos que não cospem jamais. Porém, se não o conseguirmos, pelo menos podemos reduzir o número das nossas cusparadas (1558). Em 1672, Courtin retorna ao exemplo de Erasmo para dizer que não é admissível cuspir no chão — nem bocejar diante dos outros.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Desespero

Porto, 2009 © Adelina Silva

Há uma ligação muito estreita entre a adoração da acção e o uso do homem como meio de atingir fins que não são o homem. Como há uma ligação aproximada entre este desespero e a acção, entre a razão e a acção. A proeminência dos valores da acção sobre os da contemplação indica, sobretudo, que o homem abandonou totalmente a busca duma ideia aprazível do homem e o desejo de o colocar como fim. E que na impossibilidade de agir segundo um fim, ou de agir para ser homem, ele decide agir de qualquer maneira, apenas para agir.
O homem de acção é um desesperado que procura preencher o vazio do seu próprio desespero com actos ligados mecanicamente uns aos outros e compreendidos entre um ponto de início e um ponto de conclusão, ambos gratuitos e convencionais.

Alberto Moravia, in "O Homem Como Fim”

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Menina à janela

Porto, 2009 © Adelina Silva


Preciso dos outros ( quem de mim precisa?)
Nos teus olhos vejo uma promessa nua.
A esperança está viva, a vida está certa:
guarda a minha mão, guardarei a tua.
Alexandre O'Neill

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Perenidade

Porto, 2009 © Adelina Silva
O que mais me intriga e dói na nossa morte, como vemos na dos outros, é que nada se perturba com ela na vida normal do mundo. Mesmo que sejas uma personagem histórica, tudo entra de novo na rotina como se nem tivesses existido. O que mais podem fazer-te é tomar nota do acontecimento e recomeçar. Quando morre um teu amigo ou conhecido, a vida continua natural como se quem existisse para morrer fosses só tu. Porque tudo converge para ti, em quem tudo existe, e assim te inquieta a certeza de que o universo morrerá contigo. Mas não morre. Repara no que acontece com a morte dos outros e ficas a saber que o universo se está nas tintas para que morras ou não. E isso é que é incompreensível - morrer tudo com a tua morte e tudo ficar perfeitamente na mesma. Tudo isto tem significado para o teu presente.

Vergílio Ferreira, in "Escrever"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bruxas há muitas

Santiago, 2009 © Adelina Silva


As bruxas assumem muitas formas. Já o escritor Roal Dahl nos avisava que elas estão onde menos se espera. Se fossem todas iguais às dos livros, não havia nenhum menino, nem nenhum adulto que entrasse nas suas casas de chocolate e acabasse preso numa gaiola, na engorda.
É para poderem enfeitiçar mais gente que elas às vezes se disfarçam, e só percebemos quem realmente são quando deixam cair a máscara. Ou seja, invariavelmente, tarde de mais.
A bruxa vingativa. Há mulheres que nasceram para fazer a vida dos homens num inferno, que me desculpem as minhas correligionárias. Não é por os obrigarem a dizer que gostam delas vinte vezes ao dia, que isso é uma banalidade congénita, mas por viverem obcecadas pelo seu ciúme e não permitirem que os pobres rapazes se afastem dois passos sem a sua companhia. Fingem que procuram um par, mas na realidade querem um servo da gleba. Há relações com bruxas vingativas que duram anos, tal o medo de uma separação, mas os que conseguem dar o grito do Ipiranga recebem a confirmação de que os seus receios eram justificados. Estas bruxas recusam-se a aceitar que o amor tenha acabado, ou a «união» chegado ao fim. Quando sentem que ainda podem reconquistar o escravo, fazem o papel de coitadinhas, mas mal percebem que a ruptura é definitiva, deitam as garras de fora.
A bruxa sedutora. São aquelas que abusam constantemente da nossa boa-fé e da nossa bondade. Falam com uma voz melosa e insinuam-se o mais que podem. Aquilo cheira-nos ligeiramente a esturro, por vezes temos quase a certeza de que nos estão a dar uma grande tanga, mas lá vamos dando o benefício da dúvida. E, de caminho, cumprindo as suas ordens, fazendo o seu trabalho, assumindo as suas responsabilidades e, quando damos por isso, não passamos de marionetas nas suas mãos hábeis. No dia em que perdemos a cabeça, a bruxa sedutora faz o papel de vítima com tanto jeito para o teatro, que acabamos por nos chicotear a nós mesmos.
As bruxas boas. Estas são a paixão de qualquer pessoa de bom senso. Usam o chapéu de bico sem vergonha, montam-se em vassouras em pleno dia e não escondem o caldeirão na despensa. Podem desarmar quem quiserem com a sua varinha, mas, quando o fazem, o desarmado/a agradece, porque só fica a ganhar. Quando se encontra uma bruxa boa, nunca mais se suporta uma mulher banal, que não seja capaz de aquecer o jantar, mudar os móveis de sítio, ou fazer-nos rir até às lágrimas, só com um torcer de nariz. Felizmente todos conhecemos bruxas destas, e se formos gente cheia de sorte, até temos uma ou duas lá em casa.
Isabel Stilwell, adaptado de DESTAK FDS , Abril 2008

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O sossego da escala

Porto, 2009 © Adelina Silva

Os homens em regra não sentem o escoar do tempo. Vivem em paz provisória. Nós, porém, ao chegar a uma escala, tínhamos a noção desse escoar, ao pesarem sobre nós os ventos alísios, sempre em marcha. Fazíamos lembrar o passageiro do rápido, saturado do ruído nocturno dos eixos, que pelos punhados de luz dissipados por detrás da janela adivinha o correr das campinas e das suas aldeias e domínios encantados, dos quais coisa nenhuma pode reter, visto achar-se em viagem. Também nós, animados por ligeira febre, os ouvidos ainda zunindo do ruído do voo, sentíamo-nos em andamento, apesar do sossego da escala. Assim nós, nós também, dávamo-nos conta de ser arrebatados para um destino desconhecido, através do espírito dos ventos, pelo pulsar dos nossos corações.

Antoine de Saint-Exupéry, in “Terra dos Homens”


domingo, 25 de outubro de 2009

Desencontro

Porto, 2009 © Adelina Silva


Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

sábado, 24 de outubro de 2009

Atei-a

© Adelina Silva

A teia foi construída com as palavras da lua
E com a ajuda do vento.
O corpo preparou-se para a entrega da
Delicadeza e ela esperou em surpresa
Pela chegada do desejo e da paixão.
Ficou parada sentido o tempo cobrar
Até que ele chegasse e ficasse, não como
Uma vítima, mas como compromisso
E eternidade.

Ele veio banhado de promessas e
Mãos de sonho...ela cozinhou o
Amor, cantou para ele de dia e o
Enrolou em sua teia de prazer à noite.
Seus lençóis de cetim foram perfume
De pecado e jasmim, sua boca de
Estrela foi o beijo de carmim.

Revelava-se poesia em seus cabelos,
Nas unhas cravadas nas costas dele,
No olhar que o rasgava em cada mordida
Atrevida dessa que tinha uma teia
Cultivada em flor e beleza.

Aos poucos, ele foi paralisando,
Ficando imóvel, envolvido naqueles
Contornos de luz e paz.
Aos poucos ele foi esquecendo de
Fugir e foi querendo muito mais.
E na teia dela ficou preso o amor
Sussurrando pelo avesso o encontro
Da pele com o mito em esplendor.


Karla Bardanza

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Sabes, sabes....???

Sevilha, 2009 © Adelina Silva


Porque nós não sabemos, pois não? Toda a gente sabe. O que faz as coisas acontecerem da maneira que acontecem? O que está subjacente à anarquia da sequência dos acontecimentos, às incertezas, às contrariedades, à desunião, às irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. «Toda a gente sabe» é a invocação do lugar-comum e o inimigo da banalização da experiência, e o que se torna tão insuportável é a solenidade e a noção da autoridade que as pessoas sentem quando exprimem o lugar-comum. O que nós sabemos é que, de um modo que não tem nada de lugar-comum, ninguém sabe coisa nenhuma. Não podemos saber nada. Mesmo as coisas que sabemos, não as sabemos. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É espantosa a quantidade de coisas que não sabemos. E mais espantoso ainda é o que passa por saber.

Philip Roth, in "A Mancha Humana"

sábado, 17 de outubro de 2009

O amor (dos outros)

Algures num Parque © Adelina Silva

A fartura sempre me deixou confusa. Uma mesa demasiado cheia tira-me o apetite. Um restaurante com demasiados pratos no cardápio, baralha-me. Eu adoro ir aos sítios onde até nos dizem de cor o que há. E, sabem, é às vezes no meio de quatro pratos que eu nunca comeria que descubro um paladar que me conquista.
No amor também é assim. Ou talvez seja eu que sou assim. Os homens com demasiadas mulheres em volta estão miseravelmente sozinhos. As mulheres que jogam em várias frentes comem sozinhas à noite refeições aquecidas no microondas.
(…)
O amor é para sentir, não é para mascarar. E quem tem medo de o viver é porque não o merece.

Cidália Dias, in “O Sexo e a Cidade” – Revista NS 197



quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Recordações

Adelina Silva

Quando piso folhas secas...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Escuta(-me) a chuva

© Adelina Silva


permanecemos aqui, neste quarto, onde a escuridão é eterna claridade. fora deste lugar nunca viste o mar.
mas tudo isto se passou noutro tempo, noutro lugar. e a tua boca deixava na minha um travo de asas salgadas…
breves nuvens. o entardecer sobre o corpo estendido na erva fresca do sonho. Abrias nas pedras fulvas da praia um sítio para esconder a paixão.
cansei-me de te sonhar. cansei-me do sangue e da chuva, da memória dessas rotas difíceis.
donde te escrevo apenas uma parte de mim não partiu.
encosto a alma à quilha do navio. deixo-me ir no vaivém das marés, e da fala

Al Berto, in “O Último Coração do Sonho”

domingo, 4 de outubro de 2009

Procissão

Porto, 2009 © Adelina Silva

(...)
Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!
(...)

António Lopes Ribeiro

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sofrer para quê?

Porto, 2009 © Adelina Silva

Esquecemos, repudiamos uma pessoa triste ou doente, em virtude da sua inutilidade psíquica ou física.
Ninguém se abandonará a ti, se não vir nisso algum proveito.
E tu? Creio ter-me abandonado uma vez, desinteressadamente. Não devo, portanto, chorar por ter perdido o objecto daquele abandono. Já não seria desinteressado, nesse caso. No entanto, vendo quanto se sofre, o sacrifício é antinatural. Ou superior às minhas forças. E chorar é ceder ao mundo, é reconhecer que se procurava algum proveito. Há alguém que renuncie, podendo ter? A caridade não é outra coisa que o ideal da impotência.
(…)
Mas a grande, a tremenda verdade é esta: sofrer, para nada serve
.

Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

domingo, 27 de setembro de 2009

Possuo para sempre tudo o que perdi

Porto, 2009 © Adelina Silva


Possuo para sempre tudo o que perdi. (…) Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amo-te pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.


Al Berto, in “O último coração do sonho”