quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cavalo de Ferro

Porto, 2010 © Adelina Silva

Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de Agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.

Eugénio de Andrade, in “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Local Incerto

Porto, 2010 © Adelina Silva

O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

João-Maria Nabais

segunda-feira, 22 de março de 2010

Inevitabilidade

Avintes, 2010 © Adelina Silva

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

quarta-feira, 17 de março de 2010

Quem tem coragem de perguntar?

Porto, 2010 © Adelina Silva

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,

esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,

a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trémulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais subtis,

no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.
Cecília Meireles

sábado, 13 de março de 2010

Ironias do Desgosto

Avintes, 2010 © Adelina Silva

(...)
Há quem te julgue um velho.
O teu sorriso é falso;
Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
Que estão edificando um negro cadafalso
E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!
Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio,
No campo, a quietação banhada de prazer!
Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
E os júbilos, que abril acaba de trazer?

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

sábado, 6 de março de 2010

Silêncio

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O silêncio é a sombra
em que me escondo,
em que despejo a minha dor
como um lamento,
a saudade é a penumbra
em que me encontro,
e o desejo a cor em que me ausento.


Alexandra Malheiro, in “Sombras da Noite”

quarta-feira, 3 de março de 2010

Coração Polar

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…)
Não sei de cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Verdes Anos

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.

Fernando Pessoa

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Depus a máscara

2010 © Adelina Silva

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ser Livre

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Ser livre é ter mil asas,
Mil vozes e mil esperanças,
Saber tocar deliciadamente a música que ecoa,
Liberdade é o que nos faz escolher e nunca manipular.
Pensar diferente, para alcançar as nossas semelhanças,
Semelhanças talvez escondidas,
Mas que nos conduzem às asas do sonho,
Do sonho traçado por um qualquer mutante,
Vivido e prevenido dos esquecimentos supérfulos.
Renata Pereira Correia, in “Ensaios de Ficção”

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Namorar é sempre que o Homem quiser




Braga, 2009 © Adelina Silva
Nota: As fotos não têm qualquer qualidade, contudo não quis deixar de assinalar este dia - não têm enquadramento nem não foram resultado de um instante. Porém, digam lá que estes lenços minhotos não são cinco estrelas. :-)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

História de Amor... a 1ª

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.

Marguerite Duras, in "Mundo Exterior "

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Direcção

Vila Nova de Gaia, 2010 © Adelina Silva

tu quebraste o ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.

não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.

Eugénio de Andrade, in “Os amantes sem dinheiro”

sábado, 30 de janeiro de 2010

Escrúpulos

Avintes, 2010 © Adelina Silva



A regra é uma teoria inventada
Que serve para escamotear
A essência do fundamento…

Augusto Canetas, in “Choque”

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Aparências

Avintes, 2010 © Adelina Silva

Há quem tenha alento
E segure porte de grupo...
Há quem no primeiro cumprimento
Saia duplamente surpreendido
E disfarce o arrependimento com lata de puto...
(…)
E há quem viva de aparências,
Na comparação achada possível
De querer ser o que não é
Por pensar, de que tudo é,
Incomparavelmente acessível!...

Augusto Canetas

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A penosa verdade

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Não há dúvida de que é inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante o mundo. Resta saber se não é igualmente inútil e prejudicial lamentarmo-nos perante nós próprios. Evidentemente. De facto, ninguém se lamentará perante si próprio, a fim de se incitar à piedade, o que nada significaria, dado que a piedade é, por definição, o voluptuoso encontro de dois espíritos. Para quê, então? Não para obter favores, porque o único favor que um espírito pode fazer a si próprio é conceder-se indulgência, e toda a gente percebe quanto é prejudicial que a vontade seja indulgente para com a sua própria e lamentável fraqueza.
Resta a hipótese de o fazermos para extrair verdades do nosso coração amolecido pela ternura. Mas a experiência ensina que as verdades surgem apenas em virtude de uma pacata e severa busca, que surpreende a consciência numa atitude inesperada e a vê, como de um filme que parasse de repente, estupefacta, mas não emocionada.
Basta, portanto.
Cesare Pavese, in "O Ofício de Viver"

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A Fonte

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva
(…)
A fonte
Sempre tem
Um murmúrio casual
De vigiar quem passa
Que vem
De ver o mar, tão servo
Do sol, ave de fogo no horizon
te
Mário Cesariny, in "Manual de Prestidigitação"

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Linha Recta

Póvoa de Varzim, 2010 ©Adelina Silva
Mas a nossa vista aguçou-se e fizemos um progresso cruel. Com o avião tornámo-nos cientes da linha recta. Assim que descolámos deixamos esses caminhos que se inclinam para os bebedoiros e estábulos, ou serpenteiam de cidade para cidade. Libertos doravante das servidões bem-amadas, libertos da falta de fontes, rumamos para os nossos objectivos longínquos. Só então descobrimos, do alto das nossas trajectórias rectilíneas, o substrato principal, a assentada de rochas, de areia ou de sal, onde às vezes a vida, como um pouco de musgo nos buracos das ruínas, aqui e ali se atreve a florir.
Antoine de Saint-Exupéry, in “Terra dos Homens”

sábado, 9 de janeiro de 2010

Numa manhã estranha

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…) Sinto-me como um grão de areia numa praia deserta. A meu lado, milhões me acompanham e, no entanto, sinto-me só. Estou só. Sou só. Faltas-me tu. Por vezes, a maré traz as ondas e, com elas, pedras que se arrastam e se depositam sobre mim. Essa pedra especial que viaja pelo mar, és tu, que sempre procuravas repousar junto a mim. Não és como uma pedra no sapato. Não, tu não és como as outras. Por ti subiria as mais altas montanhas, ainda que com pedras nos sapatos. Tu és especial. És a pedra que me sustenta, a pedra que me constrói, edifica, torna maior. Torna-nos maiores. Sê maior comigo! (…)

Tiago Abreu, in “Revista Politecnia”

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Zeros e Uns

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Se se diz a uma mulher que certo homem é inteligente, ela escreve mentalmente um zero. Se se diz que é culto, ela escreve outro zero. Se acrescentarmos que é belo, amável, com boa reputação social e tudo o mais que se quiser, ela acrescenta outros zeros. Se finalmente se confidenciar que ele é bom na cama, ela escreve um 1 antes dos zeros todos. (Tenho ideia de ter lido qualquer coisa de semelhante a esta conta não sei onde. Mas como não sei onde, façamos de conta que a conta é minha. Porque de qualquer modo, é exacta).

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 2"