domingo, 25 de abril de 2010

Encosta-te a mim

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…)
- A sua suave boca é como um ninho d’ave
onde as cerdas do meu bigode lhe emplumam o futuro.


Ruy Cinatti, in “Carta para a Pérsia”


Sugestão de Música
"Maybe This Time" - Kristen Chenoweth and Lea Michele

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Somos Livres (como a Gaivota)

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Onde estavas no 25 de Abril de 1974?

(...)
Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

(...)

Música e Letra: Ermelinda Duarte
Somos Livres (uma gaivota voava voava)

domingo, 18 de abril de 2010

O Jogo

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Estilhaços

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Escrevo sobre a mesa crepuscular, apoiando com força a pena em seu peito quase vivo, que geme e recorda o bosque natal. A tinta negra abre suas grandes asas. A lâmpada rebenta e uma capa de vidros estilhaçados cobre as minhas palavras. Um fragmento afiado de luz decepa-me a mão direita. Continuo a escrever com esse coto que jorra sombra. A noite entra no quarto, o muro defronte estende a sua bocarra de pedra, grandes tímpanos de ar interpõem-se entre a pena e o papel. Ah, um simples monossílabo bastaria para fazer saltar o mundo. Mas esta noite não há espaço para uma só palavra mais.

Octavio Paz, in “Antologia Poética”

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Bobo, o Esperto e o Burro

Mijas, 1987 © Adelina Silva
Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector

sábado, 3 de abril de 2010

Forca do Abismo

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão
José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cavalo de Ferro

Porto, 2010 © Adelina Silva

Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de Agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.

Eugénio de Andrade, in “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Local Incerto

Porto, 2010 © Adelina Silva

O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

João-Maria Nabais

segunda-feira, 22 de março de 2010

Inevitabilidade

Avintes, 2010 © Adelina Silva

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

quarta-feira, 17 de março de 2010

Quem tem coragem de perguntar?

Porto, 2010 © Adelina Silva

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,

esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,

a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trémulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais subtis,

no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.
Cecília Meireles

sábado, 13 de março de 2010

Ironias do Desgosto

Avintes, 2010 © Adelina Silva

(...)
Há quem te julgue um velho.
O teu sorriso é falso;
Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
Que estão edificando um negro cadafalso
E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!
Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio,
No campo, a quietação banhada de prazer!
Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
E os júbilos, que abril acaba de trazer?

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

sábado, 6 de março de 2010

Silêncio

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O silêncio é a sombra
em que me escondo,
em que despejo a minha dor
como um lamento,
a saudade é a penumbra
em que me encontro,
e o desejo a cor em que me ausento.


Alexandra Malheiro, in “Sombras da Noite”

quarta-feira, 3 de março de 2010

Coração Polar

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…)
Não sei de cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Verdes Anos

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.

Fernando Pessoa

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Depus a máscara

2010 © Adelina Silva

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Ser Livre

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Ser livre é ter mil asas,
Mil vozes e mil esperanças,
Saber tocar deliciadamente a música que ecoa,
Liberdade é o que nos faz escolher e nunca manipular.
Pensar diferente, para alcançar as nossas semelhanças,
Semelhanças talvez escondidas,
Mas que nos conduzem às asas do sonho,
Do sonho traçado por um qualquer mutante,
Vivido e prevenido dos esquecimentos supérfulos.
Renata Pereira Correia, in “Ensaios de Ficção”

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Namorar é sempre que o Homem quiser




Braga, 2009 © Adelina Silva
Nota: As fotos não têm qualquer qualidade, contudo não quis deixar de assinalar este dia - não têm enquadramento nem não foram resultado de um instante. Porém, digam lá que estes lenços minhotos não são cinco estrelas. :-)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

História de Amor... a 1ª

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Já o disse em Hiroshima Mon Amour: o que conta não é a manifestação do desejo, da tentativa amorosa. O que conta é o inferno da história única. Nada a substitui, nem uma segunda história. Nem a mentira. Nada. Quanto mais a provocamos, mais ela foge. Amar é amar alguém. Não há um múltiplo da vida que possa ser vivido. Todas as primeiras histórias de amor se quebram e depois é essa história que transportamos para as outras histórias. Quando se viveu um amor com alguém, fica-se marcado para sempre e depois transporta-se essa história de pessoa a pessoa. Nunca nos separamos dele. Não podemos evitar a unicidade, a fidelidade, como se fôssemos, só nós, o nosso próprio cosmo. Amar toda a gente, como proclamam algumas pessoas e os cristãos, é embuste. Essas coisas não passam de mentiras. Só se ama uma pessoa de cada vez. Nunca duas ao mesmo tempo.

Marguerite Duras, in "Mundo Exterior "

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Direcção

Vila Nova de Gaia, 2010 © Adelina Silva

tu quebraste o ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.

não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direcção.

Eugénio de Andrade, in “Os amantes sem dinheiro”

sábado, 30 de janeiro de 2010

Escrúpulos

Avintes, 2010 © Adelina Silva



A regra é uma teoria inventada
Que serve para escamotear
A essência do fundamento…

Augusto Canetas, in “Choque”