quarta-feira, 26 de maio de 2010

Vagaroso Afastamento

Porto, 2010 © Adelina Silva

As coisas demoram o que eu não
queria…
… Desapareço
enfim…
E se houver um olhar a ir ter
com o vagaroso afastamento é só
uma razão de despedida…
… Esse precipício olhado pela certeza de haver, o já perdido
encanto dos dias a perder-se…


Hélder Moura Pereira
Sugestão Musical

Percy Sledge - When a Man Loves a Woman

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Esquecer

Porto, 2010 © Adelina Silva

(…)
Vês aqui alguma figura? Ninguém vê.

Repara no ponto preto que alastra na margem do quadro,
nas minhas lágrimas desse tempo.
Relê.

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"
Sugestão Musical

Ane Brun - Don't leave

domingo, 16 de maio de 2010

Balanço perene

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Ser feliz. De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. De que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos. Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua. Que dores menores me pontuaram a vida toda? Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós. Ser feliz. Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 4"
Sugestão Musical

Mafalda Veiga e Tiago Bettencourt – Balançar

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Vai um cafezinho?


Porto, 2010 © Adelina Silva

As cafetarias, comummente designadas «cafés», são um local de encontro e de convívio social. O convite para se «ir tomar um café» é claramente um apelo ao encontro, um pretexto para se sair de casa, ver os amigos e «dar dois dedos de conversa».
(…)
João: – Onde preferes ficar? Sentamo-nos aqui ou ali, mais ao fundo?
Ana: – A mim, tanto me faz! Olha, esta mesa está livre, sentamo-nos já aqui!
Ana: – Depois desta caminhada o que me apetece mesmo é descansar...
João: – E a mim também!
Ana:– Apetece-me mesmo ficar aqui uns instantes... a sentir Lisboa... a “saborear” este espaço... Já reparaste no encanto desta praça e, sobretudo, deste café?...

Excerto do Programa “Falar Bom Português” – RTP



Sugestão musical Stardust - Louis Armstrong

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Brisas do Tempo que Passa

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O lugar fica.
O tempo passa.
Mas deixa indeléveis vestígios.
As palavras querem ficar no seu lugar de criação,
como raízes fundas ou como sementes.



Nos nervos do silêncio há brisas
que só os búzios consentem.


Paulo Ferreira Borges, in “Do Tempo Sitiado - geopoemas s/d”

Sugestão musical Katie Melua - Just Like Heaven

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Da Janela do meu Quarto


havia janelas e havia portas. eu subia para cima de cadeiras


para abrir as janelas. da janela do meu quarto, via o mundo.

sei hoje que poderia ter vivido sem mais mundo do que esse.




José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"


sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Espera

Porto, 2010 © Adelina Silva

Entre as definições da ilha planetária em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. (…) Esperamos sempre alguma coisa ou alguém - que vem ou não, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. (…)E em toda a parte - nos parques públicos, nos cafés, nas salas - há o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem.
Todos, com diferentes paixões, esperam - sobretudo, as fortunas repentinas, as mudanças imprevistas, o insólito e, com frequência, o impossível. A imaginação trabalha, a fantasia floresce, a paciência suporta, a visão beatífica da hora de contemplação preenche as longas horas da vigília. Quando acontece ou se alcança o esperado, abrem-se todas as comportas da alegria. Mas por pouco tempo, pois a meta não é tão atraente como parecia de longe, ao longo do caminho - toda a vitória, no dia imediato, tem o mesmo sabor da derrota. Ou então surge demasiado tarde, quando o espírito se modificou e já não dispõe de forças para saborear o bem esperado durante tanto tempo; a mulher perfeita que se oferece, finalmente, quando o jovem ardente se tornou um velho saciado, árido ou flácido.

Giovanni Papini, in "Relatório Sobre os Homens"

domingo, 25 de abril de 2010

Encosta-te a mim

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…)
- A sua suave boca é como um ninho d’ave
onde as cerdas do meu bigode lhe emplumam o futuro.


Ruy Cinatti, in “Carta para a Pérsia”


Sugestão de Música
"Maybe This Time" - Kristen Chenoweth and Lea Michele

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Somos Livres (como a Gaivota)

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Onde estavas no 25 de Abril de 1974?

(...)
Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

(...)

Música e Letra: Ermelinda Duarte
Somos Livres (uma gaivota voava voava)

domingo, 18 de abril de 2010

O Jogo

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Estilhaços

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Escrevo sobre a mesa crepuscular, apoiando com força a pena em seu peito quase vivo, que geme e recorda o bosque natal. A tinta negra abre suas grandes asas. A lâmpada rebenta e uma capa de vidros estilhaçados cobre as minhas palavras. Um fragmento afiado de luz decepa-me a mão direita. Continuo a escrever com esse coto que jorra sombra. A noite entra no quarto, o muro defronte estende a sua bocarra de pedra, grandes tímpanos de ar interpõem-se entre a pena e o papel. Ah, um simples monossílabo bastaria para fazer saltar o mundo. Mas esta noite não há espaço para uma só palavra mais.

Octavio Paz, in “Antologia Poética”

terça-feira, 6 de abril de 2010

O Bobo, o Esperto e o Burro

Mijas, 1987 © Adelina Silva
Das Vantagens de Ser Bobo - Clarice Lispector

sábado, 3 de abril de 2010

Forca do Abismo

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


nenhum sofrimento conseguia desfazer
as muitas exaltações que mantinha
e mesmo à beira do abismo
exibia uma facilidade talvez sem razão
José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Cavalo de Ferro

Porto, 2010 © Adelina Silva

Parecia um cavalo ofegante – os olhos cerrados, o suor escorrendo da raiz dos cabelos, espalhando-se pelas costas, pelos flancos, pelas pernas, quase todas descobertas. Um cavalo cego mordendo o céu branco de Agosto. Mas a voz da terra chamou-o, e um relincho prolongado encheu o leito do ribeiro, morreu no alto dos amieiros. Por fim, a paz desceu ao mundo.

Eugénio de Andrade, in “Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”

sexta-feira, 26 de março de 2010

Local Incerto

Porto, 2010 © Adelina Silva

O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

João-Maria Nabais

segunda-feira, 22 de março de 2010

Inevitabilidade

Avintes, 2010 © Adelina Silva

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

quarta-feira, 17 de março de 2010

Quem tem coragem de perguntar?

Porto, 2010 © Adelina Silva

Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,

esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,

a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trémulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais subtis,

no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.
Cecília Meireles

sábado, 13 de março de 2010

Ironias do Desgosto

Avintes, 2010 © Adelina Silva

(...)
Há quem te julgue um velho.
O teu sorriso é falso;
Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
Que estão edificando um negro cadafalso
E ou vai alguém morrer ou vão matar alguém!
Eu vim - não sabes tu? - para gozar em maio,
No campo, a quietação banhada de prazer!
Não vês, ó descorado, as vestes com que saio,
E os júbilos, que abril acaba de trazer?

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'

sábado, 6 de março de 2010

Silêncio

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O silêncio é a sombra
em que me escondo,
em que despejo a minha dor
como um lamento,
a saudade é a penumbra
em que me encontro,
e o desejo a cor em que me ausento.


Alexandra Malheiro, in “Sombras da Noite”

quarta-feira, 3 de março de 2010

Coração Polar

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(…)
Não sei de cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.
Manuel Alegre