Um Olhar sobre a Era Digital - Percepções e impressões da vida quotidiana
sexta-feira, 2 de julho de 2010
domingo, 27 de junho de 2010
Cidade de Quimeras
A verdade acerca do mundo, disse ele, é que tudo é possível. Não fosse o caso de vocês se terem habituado desde a nascença a ver tudo aquilo que vos rodeia, esvaziando assim as coisas da sua estranheza, e a realidade surgiria aos vossos olhos tal como é, um truque de magia num número de ilusionismo, um sonho febril, um transe povoado de quimeras sem analogia nem precedente imaginável, um carnaval itinerante, um espectáculo de feira migratório cujo derradeiro destino, depois de montar a tenda tantas e tantas vezes em tantos baldios enlameados, é tão indescritível e calamitoso que o espírito humano não consegue sequer concebê-lo.
Cormac McCarthy, in “Meridiano de Sangue”
Sugestão Musical
VAST - One More Day
quinta-feira, 24 de junho de 2010
O Sonho
Tenho mais pena dos que sonham o provável, o legítimo e o próximo, do que dos que devaneiam sobre o longínquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possível tem a possibilidade real da verdadeira desilusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer falado à costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promete o impossível já nisso nos priva dele, mas o sonho que nos promete o possível intromete-se com a própria vida e delega nela a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingências do que acontece.
Fernando Pessoa, in “O Livro do Desassossego”
Sugestão Musical
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Caminho
Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro, te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho
É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.
É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto
Que choramos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.
Camilo Pessanha, in "Clepsidra"
Sugestão Musical
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Orgulho Nacional [v(o)uvuzelas à parte]
O tipo mais barato de orgulho é o orgulho nacional. Este trai aquele que por ele é possuído, a ausência de qualidades individuais, das quais ele se poderia orgulhar; caso contrário, não recorreria àquelas que compartilha com tantos milhões. Quem possui méritos pessoais distintos reconhecerá, antes, de modo mais claro, os defeitos da sua própria nação, pois sempre os tem diante dos olhos. Mas todo o pobre-diabo, que não tem nada no mundo de que se possa orgulhar, agarra-se ao último recurso, o de se orgulhar com a nação à qual pertence; isso faz com que se sinta recuperado e, na sua gratidão, pronto para defender com unhas e dentes todos os defeitos e desvarios próprios à tal nação.
Arthur Schopenhauer, in “Aforismos para a Sabedoria de Vida”
Sugestão MusicalWAKA WAKA (This Time for Africa)- SHAKIRA
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Et voilá... o eterno destino...
Podemos muito bem, se for esse o nosso desejo, vaguear sem destino pelo vasto mundo do acaso. Que é como quem diz, sem raízes, exactamente da mesma maneira que a semente alada de certas plantas esvoaça ao sabor da brisa primaveril.
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem de ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.
E, contudo, não faltará ao mesmo tempo quem negue a existência daquilo a que se convencionou chamar o destino. O que está feito, feito está, o que tem de ser tem muita força e por aí fora. Por outras palavras, quer queiramos quer não, a nossa existência resume-se a uma sucessão de instantes passageiros aprisionados entre o «tudo» que ficou para trás e o «nada» que temos pela frente. Decididamente, neste mundo não há lugar para as coincidências nem para as probabilidades.
Haruki Murakami, in “Em Busca do Carneiro Selvagem”
Sugestão Musical
Vangelis – West Across the Sea
Vangelis – West Across the Sea
sábado, 5 de junho de 2010
Carpe Diem
Acredito que se um homem vivesse a sua vida plenamente, desse forma a cada sentimento, expressão a cada pensamento, realidade a cada sonho, acredito que o mundo beneficiaria de um novo impulso de energia tão intenso que esqueceríamos todas as doenças da época medieval e regressaríamos ao ideal helénico, possivelmente até a algo mais depurado e mais rico do que o ideal helénico. Mas o mais corajoso homem entre nós tem medo de si próprio. A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que nos corrompe a vida. Somos castigados pelas nossas renúncias. Cada impulso que tentamos estrangular germina no cérebro e envenena-nos. O corpo peca uma vez, e acaba com o pecado, porque a acção é um modo de expurgação. Nada mais permanece do que a lembrança de um prazer, ou o luxo de um remorso. A única maneira de nos livrarmos de uma tentação é cedermos-lhe.
Oscar Wilde, in "Retrato de Dorian Gray"
Sugestão Musical
Yeah Yeah Yeahs – Runaway
domingo, 30 de maio de 2010
Aparências
Tenho dias em que todas as pessoas me dão a impressão de pequeninas figuras de papel sem expressão, sem vida. Estou falando a V. Exa. com o coração nas mãos, com a franqueza com que não falo a ninguém. Até estou admirada de mim própria; mas não admira talvez este feitio pouco comunicativo, em vista de não ter conhecido ninguém culto e sincero e amigo a quem eu pudesse ter falado assim um dia. Mãe já a não tenho há muito; tenho 22 anos e não me recordo nem da cor dos seus cabelos; irmãs nunca tive, e amigas tenho as que toda a gente tem. Amigas... conhecidas, por outra, tenho muitas, principalmente nesse meio de luxo e opulência em que a principal felicidade consiste num chapéu ou num vestido da moda. Eu não as entendo, nem elas a mim me entendem, e eu não sei se serão elas ou eu a razão, neste mundo em que cada um vive para si. Eu sou refractária a todas as altas questões de elegância, e se um vestido ou um chapéu me encanta é apenas pela porção de arte que eles podem conter, e nada mais. Já vê V. Exa. que, se esta maneira de sentir não é bem um defeito, é ao menos uma feição desagradável do meu carácter.
Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)
Sugestão Musical
Yann Tiersen / Al Bowlly – Guilty
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Vagaroso Afastamento
As coisas demoram o que eu não
queria…
… Desapareço
enfim…
E se houver um olhar a ir ter
com o vagaroso afastamento é só
uma razão de despedida…
… Esse precipício olhado pela certeza de haver, o já perdido
encanto dos dias a perder-se…
Hélder Moura Pereira
Sugestão Musical
Percy Sledge - When a Man Loves a Woman
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Esquecer
(…)
Vês aqui alguma figura? Ninguém vê.
Repara no ponto preto que alastra na margem do quadro,
nas minhas lágrimas desse tempo.
Relê.
Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música"
Sugestão Musical
Ane Brun - Don't leave
domingo, 16 de maio de 2010
Balanço perene
Ser feliz. De vez em quando, discretamente, pudicamente, ergue-se em ti ainda esta velha aspiração. Mas já não são horas de o seres, seriam só de o teres sido. De que é que depende a felicidade? O que falhou avulta quando enfrentamos a pergunta. Mas só se não tivéssemos falhado saberíamos se foi isso que falhou. Sei o que falhou mas não sei se o que falhou foi isso. A felicidade ou infelicidade têm a sua escala de grandeza. Tenho os meus motivos grandes mas os pequenos absorvem-nos. Problemas do destino, da verdade, do absoluto que desse a pacificação interior. Mas eles apagam-se ou esquecem com uma simples dor de dentes. Assim eles me avultam apenas quando essa dor se apazigua. Que dores menores me pontuaram a vida toda? Do balanço geral há o que somos para os outros e o que somos para nós. Ser feliz. Possivelmente o problema está num dente cariado. Sei o que falhou.
Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 4"
Sugestão Musical
Mafalda Veiga e Tiago Bettencourt – Balançar
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Vai um cafezinho?

As cafetarias, comummente designadas «cafés», são um local de encontro e de convívio social. O convite para se «ir tomar um café» é claramente um apelo ao encontro, um pretexto para se sair de casa, ver os amigos e «dar dois dedos de conversa».
(…)
João: – Onde preferes ficar? Sentamo-nos aqui ou ali, mais ao fundo?
Ana: – A mim, tanto me faz! Olha, esta mesa está livre, sentamo-nos já aqui!
Ana: – Depois desta caminhada o que me apetece mesmo é descansar...
João: – E a mim também!
Ana:– Apetece-me mesmo ficar aqui uns instantes... a sentir Lisboa... a “saborear” este espaço... Já reparaste no encanto desta praça e, sobretudo, deste café?...
Excerto do Programa “Falar Bom Português” – RTP
Sugestão musicalStardust - Louis Armstrong
sexta-feira, 7 de maio de 2010
Brisas do Tempo que Passa
O lugar fica.
O tempo passa.
Mas deixa indeléveis vestígios.
As palavras querem ficar no seu lugar de criação,
como raízes fundas ou como sementes.
…
Nos nervos do silêncio há brisas
que só os búzios consentem.
Paulo Ferreira Borges, in “Do Tempo Sitiado - geopoemas s/d”
Sugestão musicalKatie Melua - Just Like Heaven
segunda-feira, 3 de maio de 2010
sexta-feira, 30 de abril de 2010
A Espera
Entre as definições da ilha planetária em que nos encontramos desterrados, uma das mais apropriadas seria: uma grande sala de espera. (…) Esperamos sempre alguma coisa ou alguém - que vem ou não, que passa ou desilude, que satisfaz ou mata. (…)E em toda a parte - nos parques públicos, nos cafés, nas salas - há o homem que espera uma mulher ou a mulher que espera um homem.
Todos, com diferentes paixões, esperam - sobretudo, as fortunas repentinas, as mudanças imprevistas, o insólito e, com frequência, o impossível. A imaginação trabalha, a fantasia floresce, a paciência suporta, a visão beatífica da hora de contemplação preenche as longas horas da vigília. Quando acontece ou se alcança o esperado, abrem-se todas as comportas da alegria. Mas por pouco tempo, pois a meta não é tão atraente como parecia de longe, ao longo do caminho - toda a vitória, no dia imediato, tem o mesmo sabor da derrota. Ou então surge demasiado tarde, quando o espírito se modificou e já não dispõe de forças para saborear o bem esperado durante tanto tempo; a mulher perfeita que se oferece, finalmente, quando o jovem ardente se tornou um velho saciado, árido ou flácido.
Todos, com diferentes paixões, esperam - sobretudo, as fortunas repentinas, as mudanças imprevistas, o insólito e, com frequência, o impossível. A imaginação trabalha, a fantasia floresce, a paciência suporta, a visão beatífica da hora de contemplação preenche as longas horas da vigília. Quando acontece ou se alcança o esperado, abrem-se todas as comportas da alegria. Mas por pouco tempo, pois a meta não é tão atraente como parecia de longe, ao longo do caminho - toda a vitória, no dia imediato, tem o mesmo sabor da derrota. Ou então surge demasiado tarde, quando o espírito se modificou e já não dispõe de forças para saborear o bem esperado durante tanto tempo; a mulher perfeita que se oferece, finalmente, quando o jovem ardente se tornou um velho saciado, árido ou flácido.
Giovanni Papini, in "Relatório Sobre os Homens"
domingo, 25 de abril de 2010
Encosta-te a mim
(…)
- A sua suave boca é como um ninho d’ave
onde as cerdas do meu bigode lhe emplumam o futuro.
Ruy Cinatti, in “Carta para a Pérsia”
Sugestão de Música
"Maybe This Time" - Kristen Chenoweth and Lea Michele
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Somos Livres (como a Gaivota)
Onde estavas no 25 de Abril de 1974?
(...)
Uma gaivota voava, voava,
asas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.
(...)
Música e Letra: Ermelinda Duarte
Somos Livres (uma gaivota voava voava)
domingo, 18 de abril de 2010
O Jogo
Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.
Nuno Júdice, in "A Fonte da Vida"
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Estilhaços
Escrevo sobre a mesa crepuscular, apoiando com força a pena em seu peito quase vivo, que geme e recorda o bosque natal. A tinta negra abre suas grandes asas. A lâmpada rebenta e uma capa de vidros estilhaçados cobre as minhas palavras. Um fragmento afiado de luz decepa-me a mão direita. Continuo a escrever com esse coto que jorra sombra. A noite entra no quarto, o muro defronte estende a sua bocarra de pedra, grandes tímpanos de ar interpõem-se entre a pena e o papel. Ah, um simples monossílabo bastaria para fazer saltar o mundo. Mas esta noite não há espaço para uma só palavra mais.
Octavio Paz, in “Antologia Poética”
terça-feira, 6 de abril de 2010
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