terça-feira, 23 de novembro de 2010

Por entre bocejos

Porto, 2010 © Adelina Silva

(...)
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas - ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Bocal, quadrangular e livre-pensadora...
Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

E o dia flui....

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Giram as estações e os dias,
Giram os céus, rápidos ou lentos,
As fábulas errantes das nuvens,
De campos de jogos e campos de batalha
De instáveis nações de reflexos,
Reinos de vento que dissipa o vento: nos dias serenos o espaço palpita,
Os sons são corpos transparentes, os ecos são visíveis, ouvem-se os silêncios.
Manancial de presenças, o dia flui soberbo nas suas ficções
Octávio Paz, in “Pasado en Claro”

sábado, 13 de novembro de 2010

O mundo é bom, o espaço é muito triste...

Viana do Castelo, 2010 © Adelina Silva

(...)
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...

Talvez tu possas ser feliz um dia.

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Science-Fiction I

Batalha, 2010 © Adelina Silva

Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.
Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.
Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.
Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.
Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Gato

Porto, 2010 © Adelina Silva

Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento – um vago agradecimento? – e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão, in “Viver Todos os Dias Cansa”

sábado, 30 de outubro de 2010

Inventemos

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

"Inventemos uma esplanada uma pequena pátria um pomar longe das praças engalanadas de puro comércio. Senta-te no banco de pedra e nasce."

Alberto Serra, in "O Aparo do Demónio"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Verdade da Mentira

Burgos, 2010 © Adelina Silva

No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Nunca a encontramos por completo, mas é forçoso procurá-la. Essa busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. É essa a nossa tarefa. Na maioria das vezes é no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos nela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece.

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

domingo, 24 de outubro de 2010

Quem vai à guerra...

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Brigar é simples.
Chame-se covarde ao contendor.
Ele olhe nos olhos e:
— Repete.
Repita-se: — Covarde.
Então ele recite, resoluto:
— Puta que pariu.
— A sua, fio da puta.

Cessem as palavras. Bofetão.
Articulem-se os dois no braço a braço.
Soco de lá soco de cá
pontapé calço rasteira
unha, dente, sérios, aplicados
na honra de lutar: um corpo só de dois que se embolaram.

Dure o tempo que durar
a resistência de um.
Não desdoura apanhar, mas que se cumpra
a lei da briga, simples.

Carlos Drummond de Andrade, in ”Boitempo”

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A minha terra

Porto, 2010 © Adelina Silva


Nós, os Portugueses pertencemos à Humanidade, à Europa e a Portugal. Não somos três coisas distintas, senão uma única, inteira, a nossa.
Cada indivíduo não pode chegar até si mesmo senão através dessas três unidades a que pertence: o mundo, aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra, e a sua terra. A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro. E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida. E todo aquele que queira encontrar dentro de si mesmo a sua própria personalidade, ficará romanticamente sozinho no meio das multidões, na mais terrível solidão de todos os tempos, uma solidão onde o próprio deserto está cheio de arranha-céus e as ruas inundadas de gente!
O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também.


Almada Negreiros, in "Ensaios"

sábado, 16 de outubro de 2010

Imagens Proibidas

Valladolid, 2010 © Adelina Silva

Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes. Nem desejo saber. Basta lembrar-me de ti como quem relembra uma música. Eu quis-te com uma violência que desconhecia. Tu levaste-me por paragens inóspitas, repletas de perigos. Por ti senti pavor. Por ti senti raiva. Por ti senti desespero. Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. Tu eras em tudo um bicho indomável. Nunca te oferecias. Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos. Tive de inventar a fotografia para te capturar em imagens proibidas.

Pedro Paixão, in “Imagens Proibidas”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aldeia

Óbidos, 2008 © Adelina Silva





As pedras são tempo
O vento
séculos de vento
As árvores são tempo
as pessoas são pedras
O vento
volta-se sobre si mesmo e enterra-se
no dia de pedra

Não há água mas os olhos brilham

Octávio Paz, in "Antologia Poética"

sábado, 9 de outubro de 2010

Ausência

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Falo-te através das cidades
Falo-te através das planícies
A minha boca repousa na tua almofada
Os dois lados da parede opõem-se
À minha voz que te reconhece
Falo-te de eternidade

Ó cidades lembranças de cidades
Cidades envoltas nos nossos desejos
Cidades precoces e tardias
Cidades fortificadas cidades íntimas
Despojadas de todos os seus pedreiros
Dos seus pensadores dos seus fantasmas
(…)
E sobre o meu corpo o teu corpo estende
A toalha do seu espelho transparente.




Paul Éluard, in “Últimos Poemas de Amor”

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Evolução

Burgos, 2010 © Adelina Silva
Museu da Evolução Humana


Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Onde estou eu? (Versão Where is Wally?)

Barcelona, 2008 © Adelina Silva

Isto de um homem se sentir só, à saída
do trabalho, do cinema, ao ir pra casa…

Saber que ninguém espera que cheguemos,
para alegrar-se ao ver-nos, ou rechaçar-nos,
torna inimiga, deserta
e inóspita a mais povoada rua.

(…)

E aqui, entre tanta gente, na cidade,
sentimos que nada interessamos a ninguém.


J. M. Fonollosa, in “Cidade do Homem: New York”

domingo, 19 de setembro de 2010

Os actos

Santiago de Compostela, 2009 © Adelina Silva

Os nossos actos transformam-nos; em cada um dos nossos actos se exercem certas forças - enquanto que noutros, não - forças essas que assim são transitoriamente ignoradas; e sempre uma paixão se afirma em detrimento doutras paixões, às quais retira forças. Os nossos actos marcadamente habituais acabam por formar em redor de nós como que um edifício sólido; açambarcam as nossas forças de tal modo, que tornam difícil um desvio de intenções. Acontece também que uma abstenção habitual acaba por transformar o homem. Até pela cara se consegue adivinhar quem é um homem que se tem vencido a si próprio diariamente, ou quem é um homem que se entrega com passividade ao dia a dia. A primeira consequência da acção, é ser ela a edificar-nos, até fisicamente.

Friedrich Nietzsche, in "A Vontade de Poder"

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Momento que passa

Bombarral, 2010 © Adelina Silva

Vive o instante que passa. Vive-o intensamente até à última gota de sangue. É um instante banal, nada há nele que o distinga de mil outros instantes vividos. E no entanto ele é o único por ser irrepetível e isso o distingue de qualquer outro. Porque nunca mais ele será o mesmo nem tu que o estás vivendo. Absorve-o todo em ti, impregna-te dele e que ele não seja pois em vão no dar-se-te todo a ti. Olha o sol difícil entre as nuvens, respira à profundidade de ti, ouve o vento. Escuta as vozes longínquas de crianças, o ruído de um motor que passa na estrada, o silêncio que isso envolve e que fica. E pensa-te a ti que disso te apercebes, sê vivo aí, pensa-te vivo aí, sente-te aí. E que nada se perca infinitesimalmente no mundo que vives e na pessoa que és. Assim o dom estúpido e miraculoso da vida não será a estupidez maior de o não teres cumprido integralmente, de o teres desperdiçado numa vida que terá fim.

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente IV"

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

À deriva

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Vivemos num tempo que se sente fabulosamente capaz de realizar, porém não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, mas não é dono de si mesmo. Sente-se perdido na sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnica do que nunca, afinal de contas o mundo actual vai como o mais infeliz que tenha havido: puramente à deriva.


Ortega y Gasset, in "A Rebelião das Massas"

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Liberdade é saber dizer NÃO

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

(...)

Diz NÃO mesmo à igualdade, se ela é apenas um modo de te nivelarem pelo mais baixo e não pelo mais alto que existe também em ti. Porque ser igual na miséria e em toda a espécie de degradação não é ser promovido a homem mas despromovido a animal.

E é do NÃO ao que te limita e degrada que tu hás-de construir o SIM da tua dignidade.

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 1”

Sugestão Musical
Joe Cocker - When a Woman Cries

sábado, 28 de agosto de 2010

We no speak...

Apúlia, 2010 © Adelina Silva

Pessoas com poucas capacidades não conseguirão realmente assimilar com facilidade uma língua estrangeira: embora aprendam as suas palavras, empregam-nas apenas no significado do equivalente aproximado da sua língua materna e continuam a manter as construções e frases próprias desta última. Com efeito, esses indivíduos não conseguem assimilar o espírito da língua estrangeira, que depende essencialmente do facto do seu pensamento não se dar por meios próprios, mas, em grande parte, de ser emprestado pela língua materna, cujas frases e locuções habituais substituem os seus próprios pensamentos. Eis, portanto, a razão de eles sempre se servirem, também na própria língua, de expressões idiomáticas desgastadas, combinando-as de modo tão inábil, que logo se percebe quão pouco se dão conta do seu significado e quão pouco todo o seu pensamento supera as palavras, de modo que tudo se reduz a um palratório de papagaios. Pela razão oposta, a originalidade das locuções e a adequação individual de cada expressão usada por alguém são o sintoma inequivocável de um espírito preponderante.

Arthur Schopenhauer, in “Da Língua e das Palavras”


Sugestão Musical
Yolanda Be Cool & Dcup - We No Speak Americano

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Repouso

Bombarral, 2010 © Adelina Silva

A mente não se deve manter sempre na mesma intenção ou tensão, antes deve dar-se também à diversão. (...) O nosso espírito deve relaxar: ficará melhor e mais apto após um descanso. Tal como não devemos forçar um terreno agrícola fértil com uma produtividade ininterrupta que depressa o esgotaria, também o esforço constante esvaziará o nosso vigor mental, enquanto um curto período de repouso restaurará o nosso poder. O esforço continuado leva a um tipo de torpor mental e letargia. Nem os desejos dos homens devem encaminhar-se tão depressa nesta direcção se o desporto e o jogo os envolvem numa espécie de prazer natural; embora uma repetida prática destrua toda a gravidade e força do nosso espírito. Afinal, o sono também é essencial para nos restaurar, mas se o prolongássemos constantemente, dia e noite, seria a morte.

Séneca, in "Da Brevidade da Vida"
Sugestão Musical
Britney Spears - Everytime (Instrumental)