domingo, 12 de dezembro de 2010

Choverá?

Porto, 2010 © Adelina Silva
pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

mas desde que te foste estar aqui é oco,
cansativo, uma espera. E às vezes (como se
tivéssemos chorado) respirar custa.

sobretudo nada apetece.
sair para a rua? Ir então em frente a repetir
os passos, passear nas avenidas a espaçar as
horas – dispersar a espera?

tudo cinzento. Choverá?
aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está
a mais.

em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência

João Habitualmente

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Navio de Espelhos

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

(…)

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo

até ao fim do mundo
Mário Cesariny

sábado, 4 de dezembro de 2010

Saudade

Valladolid, 2010 © Adelina Silva

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudade,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Tempo Revisitado

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva
O tempo a que sempre regressamos
e nos visita um instante

O tempo que depois destruímos
construímos e alimentamos se nos
alimenta

O tempo onde a luz buscamos e
a morte sempre
encontramos
Casimiro de Brito, in "Mesa do Amor"


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Porto

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva
Um porto é uma estância encantadora para um espírito cansado das lutas da vida. A vastidão do céu, a arquitectura móvel das nuvens, as tonalidades mutantes do mar, o cintilar dos faróis, são um prisma maravilhosamente próprio para divertir os olhos sem nunca os aborrecer. As formas esguias dos navios, de enxárcia complicada, aos quais o marulho imprime oscilações harmoniosas, servem para conservar na alma o gosto pelo ritmo e pela beleza. E há sobretudo, também, uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para quem já não tem curiosidade nem ambição, em contemplar, inclinado no miradouro ou debruçado junto ao molhe, todos os movimentos dos que partem e dos que retornam, dos que ainda têm a força de querer, o desejo de viajar ou de enriquecer.
Charles Baudelaire, in "Pequenos Poemas e Prosas"

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Por entre bocejos

Porto, 2010 © Adelina Silva

(...)
Entanto eis-me sozinho no Café:
De manhã, como sempre, em bocejos amarelos.
De volta, as mesas apenas - ingratas
E duras, esquinadas na sua desgraciosidade
Bocal, quadrangular e livre-pensadora...
Mário de Sá-Carneiro

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

E o dia flui....

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Giram as estações e os dias,
Giram os céus, rápidos ou lentos,
As fábulas errantes das nuvens,
De campos de jogos e campos de batalha
De instáveis nações de reflexos,
Reinos de vento que dissipa o vento: nos dias serenos o espaço palpita,
Os sons são corpos transparentes, os ecos são visíveis, ouvem-se os silêncios.
Manancial de presenças, o dia flui soberbo nas suas ficções
Octávio Paz, in “Pasado en Claro”

sábado, 13 de novembro de 2010

O mundo é bom, o espaço é muito triste...

Viana do Castelo, 2010 © Adelina Silva

(...)
De que te vale o espaço se te cansa?
Quanto mais sobes mais o espaço avança...
Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
O mundo é bom, o espaço é muito triste...

Talvez tu possas ser feliz um dia.

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Science-Fiction I

Batalha, 2010 © Adelina Silva

Talvez o nosso mundo se convexe
Na matriz positiva doutra esfera.

Talvez no interspaço que medeia
Se permutem secretas migrações.
Talvez a cotovia, quando sobe,
Outros ninhos procure, ou outro sol.
Talvez a cerva branca do meu sonho
Do côncavo rebanho se perdesse.
Talvez do eco dum distante canto
Nascesse a poesia que fazemos.
Talvez só amor seja o que temos,
Talvez a nossa coroa, o nosso manto.

José Saramago, in “Os Poemas Possíveis”

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Gato

Porto, 2010 © Adelina Silva

Há dias, sabes, em que gostava de ser como o gato e que me tocasses sem desejar encontrar quaisquer sentimentos a não ser o que se exprime num espreguiçar muito lento – um vago agradecimento? – e que depois me deixasses deitado no sofá sem que nada pudesses levar da minha alma pois nem saberias o que dela roubar.

Pedro Paixão, in “Viver Todos os Dias Cansa”

sábado, 30 de outubro de 2010

Inventemos

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

"Inventemos uma esplanada uma pequena pátria um pomar longe das praças engalanadas de puro comércio. Senta-te no banco de pedra e nasce."

Alberto Serra, in "O Aparo do Demónio"

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A Verdade da Mentira

Burgos, 2010 © Adelina Silva

No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Nunca a encontramos por completo, mas é forçoso procurá-la. Essa busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. É essa a nossa tarefa. Na maioria das vezes é no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos nela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece.

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

domingo, 24 de outubro de 2010

Quem vai à guerra...

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Brigar é simples.
Chame-se covarde ao contendor.
Ele olhe nos olhos e:
— Repete.
Repita-se: — Covarde.
Então ele recite, resoluto:
— Puta que pariu.
— A sua, fio da puta.

Cessem as palavras. Bofetão.
Articulem-se os dois no braço a braço.
Soco de lá soco de cá
pontapé calço rasteira
unha, dente, sérios, aplicados
na honra de lutar: um corpo só de dois que se embolaram.

Dure o tempo que durar
a resistência de um.
Não desdoura apanhar, mas que se cumpra
a lei da briga, simples.

Carlos Drummond de Andrade, in ”Boitempo”

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A minha terra

Porto, 2010 © Adelina Silva


Nós, os Portugueses pertencemos à Humanidade, à Europa e a Portugal. Não somos três coisas distintas, senão uma única, inteira, a nossa.
Cada indivíduo não pode chegar até si mesmo senão através dessas três unidades a que pertence: o mundo, aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra, e a sua terra. A terra de cada indivíduo não está limitada pelas legítimas fronteiras físicas e políticas do seu próprio território, é além disso um pedaço determinado de uma quinta parte do mundo inteiro. E o indivíduo está tão longe de si mesmo que para chegar até si tem primeiro que dar a sua volta ao mundo, completa, até ao ponto de partida. E todo aquele que queira encontrar dentro de si mesmo a sua própria personalidade, ficará romanticamente sozinho no meio das multidões, na mais terrível solidão de todos os tempos, uma solidão onde o próprio deserto está cheio de arranha-céus e as ruas inundadas de gente!
O indivíduo nunca pertenceu a si mesmo. Pertence em absoluto à sua colectividade. E a sua colectividade é a sua própria Terra e mais aquela das cinco partes do mundo onde está a sua terra e mais o mundo inteiro também.


Almada Negreiros, in "Ensaios"

sábado, 16 de outubro de 2010

Imagens Proibidas

Valladolid, 2010 © Adelina Silva

Aqui deste lado não poderias ser quem eras, quem serias. Fugiste de um mundo pequenino, de uma asfixia. Agora de ti nada sei: de que te alimentas, quem amas, onde dormes. Nem desejo saber. Basta lembrar-me de ti como quem relembra uma música. Eu quis-te com uma violência que desconhecia. Tu levaste-me por paragens inóspitas, repletas de perigos. Por ti senti pavor. Por ti senti raiva. Por ti senti desespero. Entre nós havia sempre uma impossibilidade, um vazio. Tu eras em tudo um bicho indomável. Nunca te oferecias. Era preciso ir buscar-te aos lugares mais secretos. Tive de inventar a fotografia para te capturar em imagens proibidas.

Pedro Paixão, in “Imagens Proibidas”

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Aldeia

Óbidos, 2008 © Adelina Silva





As pedras são tempo
O vento
séculos de vento
As árvores são tempo
as pessoas são pedras
O vento
volta-se sobre si mesmo e enterra-se
no dia de pedra

Não há água mas os olhos brilham

Octávio Paz, in "Antologia Poética"

sábado, 9 de outubro de 2010

Ausência

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Falo-te através das cidades
Falo-te através das planícies
A minha boca repousa na tua almofada
Os dois lados da parede opõem-se
À minha voz que te reconhece
Falo-te de eternidade

Ó cidades lembranças de cidades
Cidades envoltas nos nossos desejos
Cidades precoces e tardias
Cidades fortificadas cidades íntimas
Despojadas de todos os seus pedreiros
Dos seus pensadores dos seus fantasmas
(…)
E sobre o meu corpo o teu corpo estende
A toalha do seu espelho transparente.




Paul Éluard, in “Últimos Poemas de Amor”

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Evolução

Burgos, 2010 © Adelina Silva
Museu da Evolução Humana


Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
Tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Onde estou eu? (Versão Where is Wally?)

Barcelona, 2008 © Adelina Silva

Isto de um homem se sentir só, à saída
do trabalho, do cinema, ao ir pra casa…

Saber que ninguém espera que cheguemos,
para alegrar-se ao ver-nos, ou rechaçar-nos,
torna inimiga, deserta
e inóspita a mais povoada rua.

(…)

E aqui, entre tanta gente, na cidade,
sentimos que nada interessamos a ninguém.


J. M. Fonollosa, in “Cidade do Homem: New York”

domingo, 19 de setembro de 2010

Os actos

Santiago de Compostela, 2009 © Adelina Silva

Os nossos actos transformam-nos; em cada um dos nossos actos se exercem certas forças - enquanto que noutros, não - forças essas que assim são transitoriamente ignoradas; e sempre uma paixão se afirma em detrimento doutras paixões, às quais retira forças. Os nossos actos marcadamente habituais acabam por formar em redor de nós como que um edifício sólido; açambarcam as nossas forças de tal modo, que tornam difícil um desvio de intenções. Acontece também que uma abstenção habitual acaba por transformar o homem. Até pela cara se consegue adivinhar quem é um homem que se tem vencido a si próprio diariamente, ou quem é um homem que se entrega com passividade ao dia a dia. A primeira consequência da acção, é ser ela a edificar-nos, até fisicamente.

Friedrich Nietzsche, in "A Vontade de Poder"