sexta-feira, 18 de março de 2011

Uma cidade pode ser...

Londres, 2011 © Adelina Silva

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. (…)

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.
Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aplausos

Londres, 2011 © Adelina Silva


- Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.


William Shakespeare, in "Hamlet"

quinta-feira, 3 de março de 2011

Do que nada se sabe

Ciudad Rodrigo, 2009 ©Adelina Silva



A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?


Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Caminhos

Berlengas, 2008 ©Adelina Silva

(...)
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim.

Francisco Bugalho, in "Paisagem"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O que é o Mar, Mãe?

Póvoa de Varzim, 2008 © Adelina Silva

"Mãe, o que é que é o mar, Mãe?" Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d´água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. "Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?"

Guimarães Rosa

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Domingo

Porto, 2010 © Adelina Silva

Ficou-lhe a paz. Do tempo
em que, movido o olhar à santidade,
parávamos no campo vendo
correr a água e adubar-se o caule
que abrirá sua roda de sustento
à fadiga do homem, que uma coroa de aves
reconhece no ar, de estar aberto
à cálida saúde da passagem.
Depois da missa, pelo domingo adentro,
crescia esta saudade
fresquíssima de estarmos tão atentos
à tarefa que, sem nós, a tarde
cumpre na terra. E mesmo ao pensamento
que amadurece nas árvores,
tocadas longe, no estremecimento
que se enreda por nós e em nós se abre.
Ficou-lhe a paz. O doce movimento

que nos inclina para a primeira idade.

Fernando Echevarria

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quem semeia pedras...

Bombarral, 2010 © Adelina Silva


"O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."


Vinicius de Moraes

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eros e Psique

Vila Real, 2008 © Adelina Silva


Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Vale do Paraíso

Algures no Norte de Portugal, 2009 © Adelina Silva

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores

(nas nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Rifa-se

Barcelona, 2008 ©Adelina Silva

Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Rifa-se um coração que, na realidade, está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões. Um coração inconsequente e precipitado, que diante de um sorriso mais malicioso já está apaixonado. Rifa-se um coração que nunca aprende. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras. Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de paixões. Sai do sério e, às vezes, revê suas posições, arrependido de palavras e gestos. Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro, que tenha um pouco mais de juízo.

Clarice Lispector

domingo, 23 de janeiro de 2011

A minha Cidade

Porto, 2010 © Adelina Silva

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios

de espuma.
(…)
Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.

Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Porta

Guimarães, 2009 © Adelina Silva

Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo

Só vivo aberta no céu!

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Estação

Porto, 2010 © Adelina Silva

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
Embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza

Que dê o nome e espere. Talvez apareça.

Mário Cesariny, in “Pena Capital”

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Composição da minha Angústia

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista. (…) O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia.

Fernando Pessoa, in “Do Livro do Desassossego”

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O último dia do tempo

Photobucket
2010 © Adelina Silva

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.


Carlos Drummond de Andrade, in “A Rosa do Povo”

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Palavras de Azevinho

Gondomar, 2010 © Adelina Silva

Natal de malva
e linho
de ternura mosqueada

Onde no peito
faz ninho
e no coração se alaga

Na entrega e no refúgio
de memória deslumbrada
entre o sonhado e o lume

Natal no seu aprisco
perfumes
de seda e cassa

Pela calada do tempo
da infância
sendo imagem

Com palavras
de azevinho

e nas costas duas asas

Maria Teresa Horta (Natal de 2008)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Falavam-me de... amor

Porto, 2010 © Adelina Silva

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.


Natália Correia, in “O Dilúvio e a Pomba”

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ai que Sábados mais profundos!

Porto, 2010 ©Adelina Silva

Ai que sábados irritantes
armados de bocas e pernas,
desenfreadas, sempre a correr,
bebendo mais do que é a conta:
não protestemos contra o bulício
que não quer andar connosco.
Pablo Neruda, in “Antologia Breve

domingo, 12 de dezembro de 2010

Choverá?

Porto, 2010 © Adelina Silva
pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

mas desde que te foste estar aqui é oco,
cansativo, uma espera. E às vezes (como se
tivéssemos chorado) respirar custa.

sobretudo nada apetece.
sair para a rua? Ir então em frente a repetir
os passos, passear nas avenidas a espaçar as
horas – dispersar a espera?

tudo cinzento. Choverá?
aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está
a mais.

em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência

João Habitualmente

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Navio de Espelhos

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

(…)

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo

até ao fim do mundo
Mário Cesariny