domingo, 24 de abril de 2011

Irreversível


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Não medir a altura do sonho.
Não medir a distância de um sorriso.
Quando a espuma das ondas chega à areia
qualquer coisa de irreversível acontece.

Ana Hatherly

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Viajo pelo teu perfil

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Desenho no mapa o teu perfil
de caravela cósmica. Viajo
por hemisférios tácteis ao encontro
do lastro puro, do contraste
que me revele

e justifique

e baste.


Albano Martins, in «Vocação do Silêncio»

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Como uma criança

© Adelina Silva


O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

Tu ausente, desamparada, só,
qual criança envergonhada e triste
como uma flor, perdida no deserto.
(...)

João-Maria Nabais

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Flutuo

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.
E flutuo, já sem mim, pura existência.



Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"


terça-feira, 12 de abril de 2011

E, então, sorriu...

2011 © Adelina Silva



Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.


Fernando Pessoa

sábado, 9 de abril de 2011

Ausência real

Vizela, 2010 © Adelina Silva

Não sei que mistério
prende meu coração ao dia de hoje
Tanto, que me parece
que estou ausente da vida
e apenas real nesta paisagem.

Albano Martins, in "Vocação do Silêncio"




segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Abismo da Agitação

Magalluf, 2010 © Adelina Silva

Não pretendo exagerar os perigos da agitação. Uma certa quantidade talvez seja saudável, mas como em quase todas as outras coisas, o problema é de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos mórbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento é pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

quarta-feira, 30 de março de 2011

F[r]esta

Somewhere in the Universe, 2010 © Adelina Silva


Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou soterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de Sol posto ou nado,

Revivo, existo, conheço:
E, inda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço:
Entrego-lhe o coração.

Fernando Pessoa, in "Ficções do Interlúdio"

domingo, 27 de março de 2011

Pórtico

Magalluf, 2010 © Adelina Silva


Quem quer que sejas: Quando a noite vem,
sai do teu quarto onde tudo conheces;
a tua casa é a última ante o longe:
Quem quer que sejas.
Com teus olhos, que, de cansados, mal
conseguem libertar-se do teu limiar gasto,
levantas devagar uma árvore negra
e põe-la ante o céu: esguia, só.
E fizeste o mundo. E ele é grande
e como palavra ainda a amadurar no silêncio.
E quando o teu querer abrange o seu sentido,
teus olhos o abandonam, ternamente...

Rainer Maria Rilke, in "Poemas - Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu"

sexta-feira, 25 de março de 2011

Infinito Presente

Londres, 2011 © Adelina Silva

No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo. Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga

num infinito presente.

Helena Kodody, in “Viagem no Espelho"

domingo, 20 de março de 2011

Acabou-se a sorte

Londres, 2011 © Adelina Silva

O meu útero repousa
na bandeja de cirurgia

Transforma-se em cinza
nos lixões hospitalares

Não tenho porque manter
compromisso com o mistério

Não adivinho mais a sorte

Já queimei o tarot.

Aleyda Quevedo Rojas, in “Soy mi cuerpo”

sexta-feira, 18 de março de 2011

Uma cidade pode ser...

Londres, 2011 © Adelina Silva

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. (…)

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.
Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aplausos

Londres, 2011 © Adelina Silva


- Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.


William Shakespeare, in "Hamlet"

quinta-feira, 3 de março de 2011

Do que nada se sabe

Ciudad Rodrigo, 2009 ©Adelina Silva



A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?


Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Caminhos

Berlengas, 2008 ©Adelina Silva

(...)
Pra quê, caminhos do mundo?
Pra quê, andanças sem Fim?
Se todo o sonho profundo
Deste Mundo e do Outro-Mundo,
Não 'stá neles, mas em mim.

Francisco Bugalho, in "Paisagem"

sábado, 19 de fevereiro de 2011

O que é o Mar, Mãe?

Póvoa de Varzim, 2008 © Adelina Silva

"Mãe, o que é que é o mar, Mãe?" Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d´água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. "Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?"

Guimarães Rosa

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Domingo

Porto, 2010 © Adelina Silva

Ficou-lhe a paz. Do tempo
em que, movido o olhar à santidade,
parávamos no campo vendo
correr a água e adubar-se o caule
que abrirá sua roda de sustento
à fadiga do homem, que uma coroa de aves
reconhece no ar, de estar aberto
à cálida saúde da passagem.
Depois da missa, pelo domingo adentro,
crescia esta saudade
fresquíssima de estarmos tão atentos
à tarefa que, sem nós, a tarde
cumpre na terra. E mesmo ao pensamento
que amadurece nas árvores,
tocadas longe, no estremecimento
que se enreda por nós e em nós se abre.
Ficou-lhe a paz. O doce movimento

que nos inclina para a primeira idade.

Fernando Echevarria

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Quem semeia pedras...

Bombarral, 2010 © Adelina Silva


"O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o património de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."


Vinicius de Moraes

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Eros e Psique

Vila Real, 2008 © Adelina Silva


Conta a lenda que dormia
Uma princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O Vale do Paraíso

Algures no Norte de Portugal, 2009 © Adelina Silva

Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores

(nas nuvens
As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
Como uma epiderme verde, porejada.

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"