segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vale de México

Bombarral, 2010 © Adelina Silva


O dia desdobra seu corpo transparente. Atado à pedra solar, a luz bate-me com seus grandes martelos invisíveis. Não sou mais que uma pausa entre duas vibrações: o ponto vivo, o agudo, imóvel ponto fixo de intersecção de dois olhares que se ignoram e se encontram em mim. Pactuam? Sou o espaço puro, o campo de batalha. Vejo através de meu corpo meu outro corpo. A pedra cintila. O sol arranca-me os olhos. Em minhas órbitas vazias dois astros alisam suas plumas vermelhas. Esplendor, espiral de asas, bico feroz. E agora, meus olhos cantam. Inclina-te sobre seu canto, lança-te à fogueira.
Octávio Paz, in “Antologia Poética”

sábado, 14 de maio de 2011

Olha-me rindo uma criança

© Adelina Silva



Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madruga.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me basta.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mar Sonoro

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vítima de Blogjacking?

Parece que fui assaltada pelo método de jacking.

sábado, 30 de abril de 2011

Estrela da Tarde

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite, para haver outro dia.



José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Royal Wedding

Londres, 2011 © Adelina Silva

Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.

Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.

Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;

e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.



William Shakespeare, in "Sonetos"

domingo, 24 de abril de 2011

Irreversível


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Não medir a altura do sonho.
Não medir a distância de um sorriso.
Quando a espuma das ondas chega à areia
qualquer coisa de irreversível acontece.

Ana Hatherly

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Viajo pelo teu perfil

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Desenho no mapa o teu perfil
de caravela cósmica. Viajo
por hemisférios tácteis ao encontro
do lastro puro, do contraste
que me revele

e justifique

e baste.


Albano Martins, in «Vocação do Silêncio»

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Como uma criança

© Adelina Silva


O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

Tu ausente, desamparada, só,
qual criança envergonhada e triste
como uma flor, perdida no deserto.
(...)

João-Maria Nabais

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Flutuo

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.
E flutuo, já sem mim, pura existência.



Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"


terça-feira, 12 de abril de 2011

E, então, sorriu...

2011 © Adelina Silva



Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.


Fernando Pessoa

sábado, 9 de abril de 2011

Ausência real

Vizela, 2010 © Adelina Silva

Não sei que mistério
prende meu coração ao dia de hoje
Tanto, que me parece
que estou ausente da vida
e apenas real nesta paisagem.

Albano Martins, in "Vocação do Silêncio"




segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Abismo da Agitação

Magalluf, 2010 © Adelina Silva

Não pretendo exagerar os perigos da agitação. Uma certa quantidade talvez seja saudável, mas como em quase todas as outras coisas, o problema é de ordem quantitativa. Uma dose demasiado pequena pode gerar desejos mórbidos e o abuso pode produzir o esgotamento. Certa capacidade para suportar o aborrecimento é pois essencial a uma vida feliz e isso era uma das coisas que deviam ser ensinadas aos jovens.

Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

quarta-feira, 30 de março de 2011

F[r]esta

Somewhere in the Universe, 2010 © Adelina Silva


Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,

Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou soterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de Sol posto ou nado,

Revivo, existo, conheço:
E, inda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço:
Entrego-lhe o coração.

Fernando Pessoa, in "Ficções do Interlúdio"

domingo, 27 de março de 2011

Pórtico

Magalluf, 2010 © Adelina Silva


Quem quer que sejas: Quando a noite vem,
sai do teu quarto onde tudo conheces;
a tua casa é a última ante o longe:
Quem quer que sejas.
Com teus olhos, que, de cansados, mal
conseguem libertar-se do teu limiar gasto,
levantas devagar uma árvore negra
e põe-la ante o céu: esguia, só.
E fizeste o mundo. E ele é grande
e como palavra ainda a amadurar no silêncio.
E quando o teu querer abrange o seu sentido,
teus olhos o abandonam, ternamente...

Rainer Maria Rilke, in "Poemas - Elegias de Duíno - Sonetos a Orfeu"

sexta-feira, 25 de março de 2011

Infinito Presente

Londres, 2011 © Adelina Silva

No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo. Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga

num infinito presente.

Helena Kodody, in “Viagem no Espelho"

domingo, 20 de março de 2011

Acabou-se a sorte

Londres, 2011 © Adelina Silva

O meu útero repousa
na bandeja de cirurgia

Transforma-se em cinza
nos lixões hospitalares

Não tenho porque manter
compromisso com o mistério

Não adivinho mais a sorte

Já queimei o tarot.

Aleyda Quevedo Rojas, in “Soy mi cuerpo”

sexta-feira, 18 de março de 2011

Uma cidade pode ser...

Londres, 2011 © Adelina Silva

Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. (…)

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.
Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

quarta-feira, 9 de março de 2011

Aplausos

Londres, 2011 © Adelina Silva


- Portanto, nada de contenção exagerada. O seu discernimento deve ser o seu guia. Ajuste o gesto à palavra, a palavra ao gesto, e cuide de não perder a simples naturalidade. Pois tudo o que é forçado foge do propósito da actuação, cuja finalidade, tanto na origem como agora, era e é erguer um espelho diante da natureza. Mostrar à virtude as suas feições; ao orgulho, o desprezo, e a cada época e geração, sua figura e estampa. O exagero e a imperícia podem divertir os incultos, mas causam apenas desconforto aos judiciosos; àqueles cuja censura, ainda que de um só, deve pesar mais em sua estima que toda uma plateia de ignorantes.


William Shakespeare, in "Hamlet"

quinta-feira, 3 de março de 2011

Do que nada se sabe

Ciudad Rodrigo, 2009 ©Adelina Silva



A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?


Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"