sábado, 2 de julho de 2011

... e as coisas que não falam...


Burgos, 2010 © Adelina Silva

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

António Gedeão


quarta-feira, 29 de junho de 2011

S. Pedro Poveiro


© Adelina Silva

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© Adelina Silva


Local: Bairro Norte, Póvoa de Varzim
Dia: Noite de S. Pedro, 2011



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Similitudes


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

O macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se perecem com outras
(…)

Arnaldo Antunes

domingo, 26 de junho de 2011

Ai, Portugal, Portugal...


2011 © Adelina Silva

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

(…)

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abismos


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sossego, só... sossego


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,

(…)

De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

(…)
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma e... outra


Atapuerca, 2010 © Adelina Silva

(...)
Pensando na minha hora derradeira,
Eu vi só entre nós sentada a Morte,
E ao pé de uma caveira, outra caveira.


Francisco Joaquim Bingre, in "Sonetos"

sábado, 11 de junho de 2011

Uma cidade...


Burgos, 2010 © Adelina Silva


(...)

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.


Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Portugal


Apúlia, 2010 © Adelina Silva


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.


Miguel Torga, in "Diário X"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pirata


Magalluf, 2010 © Adelina Silva
Sou o único homem a bordo do meu barco
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
e o meu desprezo reina sobre o mar

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 29 de maio de 2011

O tempo vai mudar





Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa. (…) Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. (…) A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar. (…)
— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.
António Torrado

sexta-feira, 27 de maio de 2011

... e as coisas que não falam

Guimarães, 2010 © Adelina Silva


Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.


António Gedeão

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Nos Bares do Ocidente

Guimarães, 2010 © Adelina Silva
Nos bares do ocidente à hora de fechar todos os bêbados se abraçam, e contam a vida desde pequeninos.
José Amaro Dionísio, in "Vidas Caídas"


sábado, 21 de maio de 2011

A Pedreira

Barcelona, 2009 © Adelina Silva


Pego no disforme de uma pedra e vou
em busca de outra forma
de outro quente
de outra manta

Pego nas arestas de uma pedra
e sonho catedrais.
Arrisco a perfeição de uma coluna
onde meu rosto
possa receber a luz
da primeirrísima manhã.

Pego na bruteza de uma pedra
e sei que todo o meu trabalho é renascer
tecer palavras e sentidos
e cuidar da pedra
desbravar a pedra
numa outra geometria
de fios e segredos e afectos.

José Fanha

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Com as gaivotas


Apúlia, 2011 © Adelina Silva


Contente de me dar como as gaivotas
bebo o outono e a tarde arrefecida.
Perfeito o céu, perfeito o mar, e este amor

por mais que digam é perfeito como a vida.


Eugénio de Andrade, in “Os amantes sem dinheiro”

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Vale de México

Bombarral, 2010 © Adelina Silva


O dia desdobra seu corpo transparente. Atado à pedra solar, a luz bate-me com seus grandes martelos invisíveis. Não sou mais que uma pausa entre duas vibrações: o ponto vivo, o agudo, imóvel ponto fixo de intersecção de dois olhares que se ignoram e se encontram em mim. Pactuam? Sou o espaço puro, o campo de batalha. Vejo através de meu corpo meu outro corpo. A pedra cintila. O sol arranca-me os olhos. Em minhas órbitas vazias dois astros alisam suas plumas vermelhas. Esplendor, espiral de asas, bico feroz. E agora, meus olhos cantam. Inclina-te sobre seu canto, lança-te à fogueira.
Octávio Paz, in “Antologia Poética”

sábado, 14 de maio de 2011

Olha-me rindo uma criança

© Adelina Silva



Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madruga.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca me basta.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que é nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim…
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Mar Sonoro

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva


Mar sonoro, mar sem fundo mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós.
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vítima de Blogjacking?

Parece que fui assaltada pelo método de jacking.

sábado, 30 de abril de 2011

Estrela da Tarde

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhamos tardamos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficamos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde demais para haver outra noite, para haver outro dia.



José Carlos Ary dos Santos