segunda-feira, 25 de julho de 2011

E toda aquela infância...


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


sábado, 23 de julho de 2011

Apenas dois


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objectos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
Paralelos que se encontram no infinito...
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda




quarta-feira, 20 de julho de 2011

Nostalgia do Presente


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

Jorge Luis Borges, in"A Cifra"


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquela Nuvem


Porto, 2010 © Adelina Silva

- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

(...)

- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

- Serve para te ver.
E passar, passar.

Eugénio de Andrade


sábado, 16 de julho de 2011

Flutuo


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio Paz, in"Liberdade sob Palavra"


quarta-feira, 13 de julho de 2011

A aranha


Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa





domingo, 10 de julho de 2011

O Carro Eléctrico


Porto, 2010 © Adelina Silva

(...) Era o sal das histórias picantes, a doçura das afeições da gente comum, o vinagre do azedume dos que sofriam a sua ronceirice, os seus atrasos e incómodos, a poesia de quem se deleitava com as oportunidades do romance de algumas viagens. (...)

Hélder Pacheco, in"O Carro Eléctrico no Porto"


sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Rede (social)


Londres, 2011 © Adelina Silva

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
(…)

Nuno Júdice, in"Teoria Geral do Sentimento"


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sou uma pausa


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

A luz tece no muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.

Bem no centro de um olho me descubro:
não me fita, me fito em seu olhar.

O instante se dissipa. Sem mover-me,
eu me quedo e me vou: sou uma pausa.

Octávio Paz


sábado, 2 de julho de 2011

... e as coisas que não falam...


Burgos, 2010 © Adelina Silva

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

António Gedeão


quarta-feira, 29 de junho de 2011

S. Pedro Poveiro


© Adelina Silva

Clique na imagem para sentir...




© Adelina Silva


Local: Bairro Norte, Póvoa de Varzim
Dia: Noite de S. Pedro, 2011



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Similitudes


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

O macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se perecem com outras
(…)

Arnaldo Antunes

domingo, 26 de junho de 2011

Ai, Portugal, Portugal...


2011 © Adelina Silva

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

(…)

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abismos


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sossego, só... sossego


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,

(…)

De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

(…)
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma e... outra


Atapuerca, 2010 © Adelina Silva

(...)
Pensando na minha hora derradeira,
Eu vi só entre nós sentada a Morte,
E ao pé de uma caveira, outra caveira.


Francisco Joaquim Bingre, in "Sonetos"

sábado, 11 de junho de 2011

Uma cidade...


Burgos, 2010 © Adelina Silva


(...)

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.


Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Portugal


Apúlia, 2010 © Adelina Silva


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.


Miguel Torga, in "Diário X"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pirata


Magalluf, 2010 © Adelina Silva
Sou o único homem a bordo do meu barco
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
e o meu desprezo reina sobre o mar

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, 29 de maio de 2011

O tempo vai mudar





Era uma vez uma gaivota que gostava de ser pomba.
Dizia ela que as gaivotas não servem para nada, ao passo que as pombas sempre servem para alguma coisa. (…) Ficou sozinha a gaivota que queria ser pomba. (…) A gaivota que queria ser pomba ficou a olhar o mar. Ia abrir as suas asas para as lançar sobre as ondas, à cata de peixinho para o almoço, quando um estranho torpor lhe tomou o corpo. Deteve-se. Encolheu-se. Tapou a cabeça com uma asa. Aquilo havia de passar. (…)
— Estão as gaivotas em terra — disse uma voz humana, abrindo uma janela, junto à praia. — Vai haver tempestade. Sendo assim, já não me arrisco a ir para o ar.
De facto, quando as gaivotas ficam em terra, os pescadores sabem que o tempo vai mudar. Elas é que dão o sinal. Elas é que sabem. Elas é que pressentem quando a tempestade se aproxima.
“Afinal, sempre tenho alguma utilidade”, pensou a gaivota que queria ser pomba, toda enrolada numa bola de penas, e, daí em diante, preferiu continuar a ser gaivota.
António Torrado