quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Lugares


Palma Nova, 2011 © Adelina Silva

é tão fácil amar lugares
que não existem
Alice Vieira


segunda-feira, 25 de julho de 2011

E toda aquela infância...


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


sábado, 23 de julho de 2011

Apenas dois


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objectos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
Paralelos que se encontram no infinito...
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda




quarta-feira, 20 de julho de 2011

Nostalgia do Presente


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

Jorge Luis Borges, in"A Cifra"


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquela Nuvem


Porto, 2010 © Adelina Silva

- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

(...)

- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

- Serve para te ver.
E passar, passar.

Eugénio de Andrade


sábado, 16 de julho de 2011

Flutuo


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio Paz, in"Liberdade sob Palavra"


quarta-feira, 13 de julho de 2011

A aranha


Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa





domingo, 10 de julho de 2011

O Carro Eléctrico


Porto, 2010 © Adelina Silva

(...) Era o sal das histórias picantes, a doçura das afeições da gente comum, o vinagre do azedume dos que sofriam a sua ronceirice, os seus atrasos e incómodos, a poesia de quem se deleitava com as oportunidades do romance de algumas viagens. (...)

Hélder Pacheco, in"O Carro Eléctrico no Porto"


sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Rede (social)


Londres, 2011 © Adelina Silva

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
(…)

Nuno Júdice, in"Teoria Geral do Sentimento"


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sou uma pausa


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

A luz tece no muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.

Bem no centro de um olho me descubro:
não me fita, me fito em seu olhar.

O instante se dissipa. Sem mover-me,
eu me quedo e me vou: sou uma pausa.

Octávio Paz


sábado, 2 de julho de 2011

... e as coisas que não falam...


Burgos, 2010 © Adelina Silva

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

António Gedeão


quarta-feira, 29 de junho de 2011

S. Pedro Poveiro


© Adelina Silva

Clique na imagem para sentir...




© Adelina Silva


Local: Bairro Norte, Póvoa de Varzim
Dia: Noite de S. Pedro, 2011



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Similitudes


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

O macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se perecem com outras
(…)

Arnaldo Antunes

domingo, 26 de junho de 2011

Ai, Portugal, Portugal...


2011 © Adelina Silva

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

(…)

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abismos


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Sossego, só... sossego


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Aqui onde se espera
- Sossego, só sossego -
Isso que outrora era,

(…)

De reinar, mas guardando
- Sossego, só sossego -
O nome venerando...

(…)
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Uma e... outra


Atapuerca, 2010 © Adelina Silva

(...)
Pensando na minha hora derradeira,
Eu vi só entre nós sentada a Morte,
E ao pé de uma caveira, outra caveira.


Francisco Joaquim Bingre, in "Sonetos"

sábado, 11 de junho de 2011

Uma cidade...


Burgos, 2010 © Adelina Silva


(...)

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso

numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho.


Albano Martins, in "Castália e Outros Poemas"

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Portugal


Apúlia, 2010 © Adelina Silva


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.


Miguel Torga, in "Diário X"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Pirata


Magalluf, 2010 © Adelina Silva
Sou o único homem a bordo do meu barco
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos
e o meu desprezo reina sobre o mar

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
Sophia de Mello Breyner Andresen