quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Vou de Comboio...


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia;
- E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!
Miguel Torga, in "Antologia Poética"

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Reacção e|m|n|cadeia


Gondomar, 2010 © Adelina Silva

O cafajeste joga bilhar com a ilusão alheia.

Marcelo Soriano, via Twitter (@euHOJE)

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Uma eterna criança


Magaluf, 2011 © Adelina Silva

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Alberto Caeiro

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O espanto dos idiotas


Magaluf, 2011 © Adelina Silva

Retirem da minha frente todos os que olham com o espanto dos idiotas. A minha mais grata paisagem são os meus próprios olhos, mesmo quando olho as coisas.
- Uma vez por todas não escrevo para os que não sabem ler.

António Maria Lisboa, in "Poesia"


terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sou uma pequena folha


Andorra, 2011 © Adelina Silva

Geometria que respira errante e ritmada,
varandas verdes, direcções de primavera,
ramos em que se regressa ao espaço azul,
curvas vagarosas, pulsações de uma ordem
composta pelo vento em sinuosas palmas.

Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.
Sou uma pequena folha na felicidade do ar.
Durmo desperto, sigo estes meandros volúveis.
É aqui, é aqui que se renova a luz.

António Ramos Rosa, in "Volante Verde"



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sonhos Perdidos


Magaluff, 2011 © Adelina Silva

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...
Alexandre O'Neill


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Lugares


Palma Nova, 2011 © Adelina Silva

é tão fácil amar lugares
que não existem
Alice Vieira


segunda-feira, 25 de julho de 2011

E toda aquela infância...


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Quando as crianças brincam
E eu as oiço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar.

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no coração.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


sábado, 23 de julho de 2011

Apenas dois


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objectos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
...A se olharem...
Pensar talvez:
Paralelos que se encontram no infinito...
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda




quarta-feira, 20 de julho de 2011

Nostalgia do Presente


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

Naquele preciso momento o homem disse:
«O que eu daria pela felicidade
de estar ao teu lado na Islândia
sob o grande dia imóvel
e de repartir o agora
como se reparte a música
ou o sabor de um fruto.»
Naquele preciso momento
o homem estava junto dela na Islândia.

Jorge Luis Borges, in"A Cifra"


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Aquela Nuvem


Porto, 2010 © Adelina Silva

- É tão bom ser nuvem,
ter um corpo leve,
e passar, passar.

(...)

- Para que te serve
ser nuvem, se não
me podes levar?

- Serve para te ver.
E passar, passar.

Eugénio de Andrade


sábado, 16 de julho de 2011

Flutuo


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De que céu caído,
oh insólito,
imóvel solitário na onda do tempo?
És a duração,
o tempo que amadurece
num instante enorme, diáfano:
flecha no ar,
branco embelezado
e espaço já sem memória de flecha.
Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.

E flutuo, já sem mim, pura existência.

Octavio Paz, in"Liberdade sob Palavra"


quarta-feira, 13 de julho de 2011

A aranha


Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

A aranha do meu destino
Faz teias de eu não pensar.
Não soube o que era em menino,
Sou adulto sem o achar.
É que a teia, de espalhada
Apanhou-me o querer ir...
Sou uma vida baloiçada
Na consciência de existir.
A aranha da minha sorte
Faz teia de muro a muro...
Sou presa do meu suporte.

Fernando Pessoa





domingo, 10 de julho de 2011

O Carro Eléctrico


Porto, 2010 © Adelina Silva

(...) Era o sal das histórias picantes, a doçura das afeições da gente comum, o vinagre do azedume dos que sofriam a sua ronceirice, os seus atrasos e incómodos, a poesia de quem se deleitava com as oportunidades do romance de algumas viagens. (...)

Hélder Pacheco, in"O Carro Eléctrico no Porto"


sexta-feira, 8 de julho de 2011

A Rede (social)


Londres, 2011 © Adelina Silva

A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
(…)

Nuno Júdice, in"Teoria Geral do Sentimento"


segunda-feira, 4 de julho de 2011

Sou uma pausa


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

A luz tece no muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.

Bem no centro de um olho me descubro:
não me fita, me fito em seu olhar.

O instante se dissipa. Sem mover-me,
eu me quedo e me vou: sou uma pausa.

Octávio Paz


sábado, 2 de julho de 2011

... e as coisas que não falam...


Burgos, 2010 © Adelina Silva

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

António Gedeão


quarta-feira, 29 de junho de 2011

S. Pedro Poveiro


© Adelina Silva

Clique na imagem para sentir...




© Adelina Silva


Local: Bairro Norte, Póvoa de Varzim
Dia: Noite de S. Pedro, 2011



segunda-feira, 27 de junho de 2011

Similitudes


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

O macaco se parece com o homem
a macaca parece mulher
algumas pessoas se parecem
outras pessoas se perecem com outras
(…)

Arnaldo Antunes

domingo, 26 de junho de 2011

Ai, Portugal, Portugal...


2011 © Adelina Silva

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

(…)

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.
Manuel Alegre