quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quem jaz?


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
Tão ilustres sinais no forte escudo?
Ninguém, que nisso, enfim, se torna tudo;
Mas foi quem tudo pôde e quem tudo teve.

Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei deve:
Pôs na guerra e na paz devido estudo.
Mas quão pesado foi ao Mouro rudo,
Tanto lhe seja agora a terra leve.

(...)
Luís de Camões, in "Sonetos"

sábado, 28 de janeiro de 2012

Não quero ir por aí!!!


Figueira da Foz, 2007 © Adelina Silva

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio, in "Poemas de Deus e do Diabo"

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Espaço Interior


Londres, 2011 © Adelina Silva

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.


Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

domingo, 22 de janeiro de 2012

Fragmentos


2009 © Adelina Silva

Primeiro entretiveram-me as especulações metafísicas, as ideias científicas depois. Atraíram-me finalmente as sociológicas. Mas em nenhum destes estádios da minha busca da verdade encontrei segurança e alívio. (...)
Se erguia dos livros os meus olhos cansados, ou se dos meus pensamentos desviava para o mundo exterior a minha perturbada atenção, só uma coisa eu via, desmentindo-me toda a utilidade de ler e pensar, arrancando-me uma a uma todas as pétalas da ideia do esforço: a infinita complexidade das coisas, a imensa soma, a prolixa inatingibilidade dos próprios poucos factos que se poderiam conceber precisos para o levantamento de uma ciência.

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Sorriso


Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sonho... sem ter de quê



Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Fernando Pessoa

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Travessia


Porto, 2011© Adelina Silva

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

Rainer Maria Rilke

domingo, 8 de janeiro de 2012

TU fazes parte!


Guimarães, 2011© Adelina Silva

Soltas a sigla, o pássaro e o losango,
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real _ este obscuro mito.

Murilo Mendes, in "Tempo Espanhol"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Imaginação


Algures no interior de Espanha, 2011© Adelina Silva

no doloroso advento. da incerteza. "é a prosa da vida que faz falta a muita gente". sentença de escritor. roubam-te a esperança. o fundo olhar da paixão. chegam-se a ti com um fósforo. e querem levar tudo. a troco de um esgar. cotado em bolsa. querem vampirizar o ar que respiras. cuida. meu amor. cuida da prosa. do vagaroso espreguiçar da palavra. leva-a. no cesto da fruta. antes que apodreça na casca endividada. querem que os teus olhos. calem. as fogueiras. a alegria. o sol. que te venderam. como só teu. e agora. cobram juros. porque existe. porque sim. é preciso cortar em tudo. dizem. porque o sol também é um assalariado. e a luz que lhe assiste. (à excepção dos senhores que lhe sugaram a energia. toda. renovável). tem custos. umas manhâs às escuras. ou. uns poentes apagados. consolidam as finanças. sabes amor. estamos na boca da turbina. de assépticos. predadores. cuida amor. guarda a palavra. semeia-a no ventre. inventa-a. na dança silenciosa dos teus lábios. a palavra. em prosa serena. que ainda. não paga IVA. se já te arrancaram o fôlego. para pagar os juros da divída. salva. a imaginação. que (ainda) não é tributada.

Alberto Serra, in http://noites-de-lua-branca.blogspot.com/
(post de 23/12/11)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Vertigem


Póvoa de Varzim, 2011© Adelina Silva

O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por um balaustre sólido? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda da qual nos defendemos aterrorizados.

Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dá-me a Tua Mão


Porto, 2011© Adelina Silva

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Feliz Natal!!

Feliz Natal a TODOS!!!
Desejo-vos muitas Fotos nos presentes!!!
Toca a desembrulhá-los!!!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Coração Acordeão


Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Não o amor não tem asas
se tem asas são as mãos
que se enlaçam para a festa
maravilhosa do corpo
e entre elas o coração
coração acordeão

Alexandre O'Neill, in "Coração Acordeão"


domingo, 27 de novembro de 2011

Já não é possível


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem
Todas as coisas são perfeitas de
Nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito a mais e a menos.


Manuel António Pina, in "ainda não é o fim, nem o princípio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde”


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O Velho Colono


Porto, 2010© Adelina Silva

Sentado no banco cinzento
entre as alamedas sombreadas do parque.
Ali sentado só, àquela hora da tardinha,
ele e o tempo. O passado certamente,
que o futuro causa arrepios de inquietação.
Pois se tem o ar de ser já tão curto,
o futuro. Sós, ele e o passado,
os dois ali sentados no banco de cimento.

(...)

Em redor há todo o mundo e a vida.
Ali está ele, ele e o passado,
sentados os dois no banco de frio cimento.
Ele a sombra e a névoa do olhar.
Ele, a bronquite e o latejar cansado
das artérias. Em volta os beijos húmidos,
as frescas gargalhadas, tintas de Outono
próximo na folhagem e o tempo.

O tempo que cada qual, a seu modo,
vai aproveitando.

Rui Knofli


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Versos soltos no Mar


Póvoa de Varzim, 2011© Adelina Silva

36
Inclinei-me para ver o mar. E vi apenas
uma mulher chorando
contra o quarto minguante de uma lua crescente.

37
Mar, andei à tua procura
esse imortal sorriso...
porém não o encontrei.


Vinicius de Moraes,in "Poesia Completa e Prosa"


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Como uma vaca veio residir com os orelhudos


Burgos, 2009© Adelina Silva

Um dia numa floresta um coelho matou um homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Um insecto rastejou na cara do homem. Uma vaca observava esperando que o homem se levantasse. Uma vaca saltou uma sebe para ver mais de perto como um coelho arruma um homem. Um coelho ataca uma vaca pensando que a vaca veio ajudar o homem. O coelho domina a vaca e arrasta a vaca para a sua toca.
Quando a vaca desperta a vaca pensa, eu queria estar ao cimo da terra indo com o homem para o meu estábulo.

Russel Edson ,in "O Túnel"


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Falaram-me...


Guimarães, 2010 © Adelina Silva

Falaram-me em homens, em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si,
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.


Alberto Caeiro,in "Fragmentos"


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Nascemos para ter asas


Porto, 2011 © Adelina Silva

Nós nascemos para ter asas, meus amigos.
Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.
 No entanto, em épocas remotas, vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas como se gastam tostões.
 Cortaram-nos as asas para que fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.
 Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas, de novo voltam a ser.
 Aceitemos esta hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.
 Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.

José Fanha, in "Cartas de Marear"


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Ilumina-se a Igreja


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro ...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...

Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa ...

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"