quarta-feira, 7 de março de 2012

Bar Botequim


Zaragoza, 2011 © Adelina Silva

Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no japão
a diferença é ele ignorar.

(...)

Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.


Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

sábado, 3 de março de 2012

Com os teus passos de menina


Vale Pisão, 2012 © Adelina Silva

(...)
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio

É então que surges
com teus passos de menina
os teus sonhos arrumados
como duas tranças nas tuas costas
guiando-me por corredores infinitos
e regressando aos espelhos
onde a vida te encarou
(...)


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

És linda!


Paris, 2012 © Adelina Silva

(...)
estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.


José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

sábado, 25 de fevereiro de 2012

A Espera


Paris, 2012 © Adelina Silva

E toda a vida do homem, apesar de todos os adiamentos e paragens, não passa de um esperar a vida, a bela vida, a verdadeira, a nossa. Todo o presente e o possuído afigura-se-nos apenas um adiantamento para a nossa fome ou um mau prefácio de um livro maravilhoso. E, enquanto esperamos a vida, esquecemo-nos de viver ou vivemos sem economia e prudência, não pensando em destilar dos minutos de hoje, única propriedade certa, todo o sabor e substância.

Giovanni Papini, in "Relatório Sobre os Homens"

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Silêncio


Paris, 2012 © Adelina Silva

Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Porque é Carnaval


Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

atribuído a Clarice Lispector,
mas de autoria de Edson Marques (http://Mude.blogspot.com)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Tudo é demasiado


Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Cecília Meireles

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sonho de Criança


Vale de Pisão, 2012 © Adelina Silva

Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;
(...)
Machado de Assis, in "Falenas"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quem jaz?


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Quem jaz no grão sepulcro, que descreve
Tão ilustres sinais no forte escudo?
Ninguém, que nisso, enfim, se torna tudo;
Mas foi quem tudo pôde e quem tudo teve.

Foi Rei? Fez tudo quanto a Rei deve:
Pôs na guerra e na paz devido estudo.
Mas quão pesado foi ao Mouro rudo,
Tanto lhe seja agora a terra leve.

(...)
Luís de Camões, in "Sonetos"

sábado, 28 de janeiro de 2012

Não quero ir por aí!!!


Figueira da Foz, 2007 © Adelina Silva

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


José Régio, in "Poemas de Deus e do Diabo"

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Espaço Interior


Londres, 2011 © Adelina Silva

quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,

resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,

quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe

a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.


Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

domingo, 22 de janeiro de 2012

Fragmentos


2009 © Adelina Silva

Primeiro entretiveram-me as especulações metafísicas, as ideias científicas depois. Atraíram-me finalmente as sociológicas. Mas em nenhum destes estádios da minha busca da verdade encontrei segurança e alívio. (...)
Se erguia dos livros os meus olhos cansados, ou se dos meus pensamentos desviava para o mundo exterior a minha perturbada atenção, só uma coisa eu via, desmentindo-me toda a utilidade de ler e pensar, arrancando-me uma a uma todas as pétalas da ideia do esforço: a infinita complexidade das coisas, a imensa soma, a prolixa inatingibilidade dos próprios poucos factos que se poderiam conceber precisos para o levantamento de uma ciência.

Fernando Pessoa, in "Livro do Desassossego"

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Sorriso


Sevilha, 2009 © Adelina Silva

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Eugénio de Andrade

sábado, 14 de janeiro de 2012

Sonho... sem ter de quê



Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Fernando Pessoa

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Travessia


Porto, 2011© Adelina Silva

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

Rainer Maria Rilke

domingo, 8 de janeiro de 2012

TU fazes parte!


Guimarães, 2011© Adelina Silva

Soltas a sigla, o pássaro e o losango,
Também sabes deixar em liberdade
O roxo, qualquer azul e o vermelho.
Todas as cores podem aproximar-se
Quando um menino as conduz no sol
E cria a fosforescência:
A ordem que se desintegra
Forma outra ordem ajuntada
Ao real _ este obscuro mito.

Murilo Mendes, in "Tempo Espanhol"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Imaginação


Algures no interior de Espanha, 2011© Adelina Silva

no doloroso advento. da incerteza. "é a prosa da vida que faz falta a muita gente". sentença de escritor. roubam-te a esperança. o fundo olhar da paixão. chegam-se a ti com um fósforo. e querem levar tudo. a troco de um esgar. cotado em bolsa. querem vampirizar o ar que respiras. cuida. meu amor. cuida da prosa. do vagaroso espreguiçar da palavra. leva-a. no cesto da fruta. antes que apodreça na casca endividada. querem que os teus olhos. calem. as fogueiras. a alegria. o sol. que te venderam. como só teu. e agora. cobram juros. porque existe. porque sim. é preciso cortar em tudo. dizem. porque o sol também é um assalariado. e a luz que lhe assiste. (à excepção dos senhores que lhe sugaram a energia. toda. renovável). tem custos. umas manhâs às escuras. ou. uns poentes apagados. consolidam as finanças. sabes amor. estamos na boca da turbina. de assépticos. predadores. cuida amor. guarda a palavra. semeia-a no ventre. inventa-a. na dança silenciosa dos teus lábios. a palavra. em prosa serena. que ainda. não paga IVA. se já te arrancaram o fôlego. para pagar os juros da divída. salva. a imaginação. que (ainda) não é tributada.

Alberto Serra, in http://noites-de-lua-branca.blogspot.com/
(post de 23/12/11)


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Vertigem


Póvoa de Varzim, 2011© Adelina Silva

O que é vertigem? Medo de cair? Mas porque temos vertigem num mirante cercado por um balaustre sólido? Vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda da qual nos defendemos aterrorizados.

Milan Kundera, in "A Insustentável Leveza do Ser"


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Dá-me a Tua Mão


Porto, 2011© Adelina Silva

Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Feliz Natal!!

Feliz Natal a TODOS!!!
Desejo-vos muitas Fotos nos presentes!!!
Toca a desembrulhá-los!!!