sexta-feira, 8 de junho de 2012

Retrato de rapariga

Valencia, 2012 © Adelina Silva

Muito hirta de pé no patamar do sono
Contornando sem pressa a curva de uma artéria
Por mais ocasional que fosse o nosso encontro
dava-me a entender que estava à minha espera
Com um livro na mão com um lenço ao pescoço
uma expressão cansada a palidez inquieta
de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto
em vez de pó-de-arroz um pó de biblioteca
surgia de repente onde sempre estivera
em Zurique em Paris em Liège em Colónia
Por único endereço uma carreira aérea
Mas não sei se era louca ou apenas mitómana
Onde quer que eu a visse uma coisa era certa
Numa rua num bar num museu numa doca
dava-me a entender que estava à minha espera
dava-me a entender que se chamava Europa
David Mourão-Ferreira, in "Obra Poética 1948-1988"

quinta-feira, 7 de junho de 2012

O passado é o presente

Valencia, 2012 © Adelina Silva

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
Ricardo Reis, in "Odes"

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Gente que passa

Valencia, 2012 © Adelina Silva
(...)

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio é tudo o que tem
quem vive na servidão.
(…)

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
 (...)
Manuel Alegre

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A enguia

Burgos, 2010 © Adelina Silva

Lá vai o bom pároco dizer a sua missa e pregar o seu sermão de quaresma... Velho e gordo, muito velho e muito gordo, padre João é muito amado de toda a gente do lugar. E os pescadores que o vêm, vão deixando as redes e vão também seguindo para a igreja. E o bom pároco abençoa as suas ovelhas, e vai sorrindo, sorrindo, com aquele sorriso todo bondade e todo indulgência... À porta da igreja, a Sra. Tomásia, velha devota que o adora, vem ao encontro dele:
— Padre João! Aqui está um regalo que lhe quero oferecer para o seu almocinho de hoje...
E tira do cabaz uma enguia, uma soberba enguia, grossa e apetitosa, viva, remexendo-se.
— Deus te pague, filha! — diz o bom padre, — e os seus olhos fulguram, cheios de júbilo e gula. E segura a enguia, e vai entrando com ela na mão, seguido da velha devota. Que bela enguia! e padre João apalpa voluptuosamente o peixe...
Mas já aí vem o sacristão. A igreja está cheia... A missa vai começar... Que há de fazer o padre João da sua formosa enguia? Deixá-la ali, expô-la ao apetite do padre Antônio, que também é guloso? Padre João não hesita: levanta a batina e com um barbante amarra a enguia em roda da cintura.
A missa acaba. Padre João, comovido e grave, sobe ao púlpito rústico da igreja. E a sua voz pausada começa a narrar a delícia da abstinência e das privações: é preciso amar a Deus... é preciso evitar as torpezas do mundo... é preciso fugir das tentações da carne... E o auditório ouve com recolhimento a palavra suave do seu bom pároco.
Mas, de repente, que é aquilo? Os homens abrem os olhos espantados; remexem-se as mulheres, levantando curiosamente os olhares para o púlpito... É que, na barriga do padre João, debaixo da batina, alguma coisa grossa está bolindo... E já na multidão de fiéis correm uns risinhos abafados...
Olavo Bilac

sábado, 26 de maio de 2012

Quando nos olhamos

Paços de Ferreira, 2012 © Adelina Silva


(...)
Quando nos olhamos
Tu a límpida eu o turvo
Ver é sopro e desejo ubíquo

Criam o primeiro o último sonho.
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(...)
Lorsque nous nous regardons
Toi la limpide moi l’obscur
Voir est partout souffle et désir

Créent le permier le dernier songe.
Paul Éluard, in “Últimos Poemas de Amor”

Paços de Ferreira, 2012 © Adelina Silva


Nota: As imagens acima são trabalhos realizados por alunos da Escola Secundária de Paços de Ferreira e expostos no Dia Aberto da Escola.

domingo, 20 de maio de 2012

Elogio (barroco) da Bicicleta

Porto, 2010 © Adelina Silva


Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me etangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me as asas - trrim! trrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar !
Alexandre O'Neill

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Ilusão

Paris, 2012 © Adelina Silva


«As ilusões», dizia-me o meu amigo, «talvez sejam em tão grande número quanto as relações dos homens entre si ou entre os homens e as coisas. E, quando a ilusão desaparece, ou seja, quando vemos o ser ou o facto tal como existe fora de nós, experimentamos um sentimento bizarro, metade dele complicada pela lástima da fantasia desaparecida, metade pela surpresa agradável diante da novidade, diante do facto real».
Charles Baudelaire, in "Pequenos Poemas em Prosa"

sábado, 12 de maio de 2012

O tempo por dentro e por fora

Andorra, 2011 © Adelina Silva


Pára-me um tempo por dentro
passa-me um tempo por fora.

O tempo que foi constante
no meu contra tempo estar
passa-me agora adiante
como se fosse parar.
Por cada relógio certo
no tempo que sou agora
há um tempo descoberto
no tempo que se demora.

Fica-me o tempo por dentro
passa-me o tempo por fora.
Ary dos Santos

sexta-feira, 11 de maio de 2012

O Ser entre o Interior e o Exterior

Póvoa de Varzim, 2006 © Adelina Silva


Era um tipo estranho. Digo bem «um tipo». Olho um homem, uma mulher, e nem sempre me é possível tentar sequer abordar-lhe a pessoa por dentro. Porque há indivíduos que irresistivelmente reduzimos a «objectos». São os indivíduos «característicos» com tiques, com uma aparência de traços nítidos. Compreendo a tentação da caricatura: a um olhar sem mistério, os homens são a caricatura do homem. Por isso o romance tem ignorado a outra zona. Ah, escrever um romance que se gerasse nesse ar rarefeito de nós próprios, no alarme da nossa própria pessoa, na zona incrível do sobressalto! Atingir não bem o que se é «por dentro», a «psicologia», o modo íntimo de se ser, mas a outra parte, a que está antes dessa, a pessoa viva, a pessoa absoluta. Um romance que ainda não há... Porque há só ainda romances de coisas - coisas vistas por fora ou coisas vistas por dentro. Um romance que se fixasse nessa iluminação viva de nós, nessa dimensão ofuscante do halo de nós...

Vergílio Ferreira, in  " Estrela Polar"

domingo, 6 de maio de 2012

Miragem

Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Um mar sem ondas
        Que não molha mais
        Morreu seco
        Afundou-se na lonjura
        Infinita
        De si

Uma miragem confusa
        Esperança tremulante
        Ao longe
       
Não não canto o mar
       Como o concebes
       Canto o sem fim arenoso
       Que já foi água e hoje
       É pó

Um horizonte remoto
      Deserto sem tentações
      Que seduzem
      No Espelho da vaidade
      Que não há

Navegar é andar para sempre
      Assim
      Assado
      Sob o sol
      Até os ossos
      Que sorriem
      Branco

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Da minha aldeia

Avila, 2009 © Adelina Silva

Da minha aldeia veio quanto da terra se pode ver no Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura..

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.
Alberto Caeiro, in "Poemas Completos"

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Esta gente


Valencia, 2012 © Adelina Silva

(...)
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem

Um país ocupado
Escreve o seu nome
E em frente desta gente
Ignorada e pisada

Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada
Meu canto se renova

E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo
Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O poder da escrita


Vila Nova de Gaia, 2009 © Adelina Silva

Escreve. Seja uma carta, um diário ou umas notas enquanto falas ao telefone, mas escreve. Procura desnudar a tua alma por escrito, ainda que ninguém leia; ou, o que é pior, que alguém acabe lendo o que não querias. O simples acto de escrever ajuda-nos a organizar o pensamento e a ver com mais clareza o que nos rodeia. Um papel e uma caneta fazem milagres, curam dores, consolidam sonhos, levam e trazem a esperança perdida. As palavras têm poder.
Paulo Coelho, in "Maktub"

domingo, 22 de abril de 2012

Meditação


Andorra, 2011 © Adelina Silva

Portanto farei uma escada no coração.
E pelos degraus subirei da minha casa
Até bater com o pensamento no altíssimo.
Apagarei os passos e o cérebro como um rasto no deserto
Sempre atento como a águia quando fixa o sol
Sem pestanejar.
Farei portanto a escada no deserto para fixar
A luz.
Da minha casa subirei sem palavras
Em silêncio, portanto, pisando o coração.
Daniel Faria

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A escolha


Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

(...)
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
(...)


José Régio

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Pianista


Gondomar, 2009 © Adelina Silva

Senta-se imita
o autor Os
holofotes douram-no
é a vítima
dos expansivos círculos do som

Em torno dele o som é como
um laço
Está sentado na margem do
teclado detendo com os braços
a força ameaçadora das águas


Gastão Cruz, in "O Pianista"

domingo, 15 de abril de 2012

Ilusão do tempo e figuras


Valencia, 2012 © Adelina Silva

(…)
E a direção do olhar. E o espaço antigo
Para a forma do gesto e do vestido.

E o lugar da esperança. E a fonte . E a sombra.
E a voz que já não fala, e se prolonga.

E eis a névoa que chega, envolve as ruas,
Move a ilusão de tempos e figuras.

_ A névoa que se adensa e vai formando
nublados reinos de saudade e pranto.


Cecília Meirelles, in "Romanceiro da Inconfidência"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Estar só é...


Valencia, 2012 © Adelina Silva

Por vezes cada objecto se ilumina
do que no passar é pausa íntima
entre sons minuciosos que inclinam
a atenção para uma cavidade mínima
E estar assim tão breve e tão profundo
como no silêncio de uma planta
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice
ou na alvura de um sono que nos dá
a cintilante substância do sítio
O mundo inteiro assim cabe num limbo
e é como um eco límpido e uma folha de sombra
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes
E é astro imediato de um lúcido sono
fluvial e um núbil eclipse
em que estar só é estar no íntimo do mundo.

António Ramos Rosa, in "Poemas Inéditos"

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sueca


Porto, 2009 © Adelina Silva

Esta é uma cidade para homens velhos, uma luz
epidérmica com seu câmbio e topografia.
reconhecem-se pelos olhos, outros pelos sapatos, jogam sueca,
antes de nós já assim estavam sentados, e ficarão.

Pedro Mexia, in "Eliot e Outras Observações"

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Não basta


Valencia, 2012 © Adelina Silva

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro