segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Evolução

Magaluf, 2013 © Adelina Silva

(...)
Rugi, fera talvez, buscando abrigo 
Na caverna que ensombra urze e giesta; 
O, monstro primitivo, ergui a testa 
No limoso paúl, glauco pascigo... 

Hoje sou homem, e na sombra enorme 
Vejo, a meus pés, a escada multiforme, 
Que desce, em espirais, da imensidade... 

Interrogo o infinito e às vezes choro... 
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro 
E aspiro unicamente à liberdade. 


Antero de Quental, in "Sonetos"

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Verdades

Múrcia, 2013 © Adelina Silva

Na maioria das vezes é no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos nela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece. 

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A calma é tão profunda

San Pedro del Pinatar, 2013 © Adelina Silva


A calma é tão profunda
e abstracta que a sua fórmula não vem nos livros
e não há movimentos que a desenhem
o importante não tem tamanho para caber na televisão.

Gonçalo M. Tavares 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não são apenas os relógios

Porto, 2009 © Adelina Silva


Também se pode
regressar sem partir. Não são apenas
os relógios que se atrasam, às vezes
é o próprio tempo. E todos
os cuidados são
então necessários. Há sempre
um comboio que rola
a nosso lado sem luzes
e sem freios. E pode
faltar-nos o estribo ou já
não haver lugar
na carruagem da frente.
Albano Martins, in "Escrito a Vermelho"

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Juventude

Magaluf, 2013 © Adelina Silva

Lembras-te, Carlos, quando, ao fim do dia, 
Felizes, ambos, íamos nadar 
E em nossa boca a espuma persistia 
Em dar ao Sol o nome do Luar? 

Tudo era fácil, melodioso e longo. 
Aqui e além, um súbito ditongo 
Ecoava em nós certa canção pagã. 

Contudo o azul do mar não tinha fundo 
E o mundo continuava a ser o mundo 
Banhado pela aragem da manhã!...    


Pedro Homem de Mello, in "O Rapaz da Camisola Verde"

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Vaga de 'spuma

Magaluf, 2013 © Adelina Silva


Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva 'spuma
No moreno das praias.

Uma após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o 'spaço
Do ar entre as nuvens 'scassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De se esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Pára um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

Ricardo Reis, in "Odes"

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Contemplação

Barcelona, 2013 © Adelina Silva


Contemplo o lago mudo
Que uma brisa estremece.
Não sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece.

O lago nada me diz,
Não sinto a brisa mexê-lo
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.

Trêmulos vincos risonhos
Na água adormecida.
Por que fiz eu dos sonhos
A minha única vida?

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Fonte

Roma, 2013 © Adelina Silva

Água a correr na fonte.
Uma quimera líquida que sai
Das entranhas do monte
A saber ao mistério que lá vai…

Pura, Branca, inodora e fria,
Cai numa pedra dura
E desfaz o mistério em melodia…

Miguel Torga

sábado, 20 de julho de 2013

A geometria é o meu lugar

Sintra, 2013 © Adelina Silva

(...)

Todo o silêncio me é música.

Toda a geometria é o meu lugar.

Todos os lugares
acordam no meu peito.

                                                                                                          José Fanha, in "O elogio dos peixes, das pedras e dos simples"

domingo, 14 de julho de 2013

...

Póvoa de Varzim, 2013 © Adelina Silva

"Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos."
Fernando Pessoa

sábado, 6 de julho de 2013

A dança das máscaras ou a verdade da mentira

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

No teatro, a verdade esquiva-se sempre. Nunca a encontramos por completo, mas é forçoso procurá-la. Essa busca é claramente aquilo que guia os nossos esforços. É essa a nossa tarefa. Na maioria das vezes é no escuro que tropeçamos na verdade, esbarramos nela, ou vislumbramos uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas vezes sem nos darmos conta disso. Mas a verdade verdadeira é que, na arte do teatro, não há nunca uma verdade única que possamos encontrar. Há muitas. Estas verdades desafiam-se mutuamente, fogem, reflectem-se, ignoram-se, espicaçam-se, são insensíveis umas às outras. Às vezes pensamos que temos a verdade de um momento na mão, e depois ela escapa-se-nos por entre os dedos e desaparece.

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"

domingo, 16 de junho de 2013

A Luz que vem das Pedras

Sintra, 2013 © Adelina Silva

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

Pedro Tamen, in "Agora, Estar"

terça-feira, 11 de junho de 2013

O essencial é saber ver

Ericeira, 2013 © Adelina Silva

(...)
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de  Rebanhos"

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Schiu

Sintra, 2013 © Adelina Silva

(...)
– Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque as corolas eram alegres como frutos
E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

Vinicius de Moraes

sábado, 8 de junho de 2013

Liberdade

Praia Grande, 2013 © Adelina Silva

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impurezas,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner

quinta-feira, 23 de maio de 2013

A felicidade é um túnel


Valladolid, 2013 © Adelina Silva

          o domínio
o erotismo do domínio
          do domínio irrisório
                          mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

            vencer
                     o gelo
                     o desdém
                                  veloz

a felicidade é um túnel

Ana Hatherly, in "Um Calculador de Improbabilidades"

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Vozes

Magaluff, 2011 © Adelina Silva

Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...
(...)

Antero de Quental, in "Sonetos"

sábado, 11 de maio de 2013

Passagem

Paris, 2012 © Adelina Silva

(...)
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.
Minha quinta na província,
Haver menos que um comboio, uma diligência e a decisão de partir entre mim e ti.
Assim fico, fico... Eu sou o que sempre quer partir,
E fica sempre, fica sempre, fica sempre,
Até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica...
(...)

Álvaro de Campos, in "Poemas"

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O ciclo do cavalo

Paris, 2012 © Adelina Silva

Onde mora a memória obscura, onde
esse cavalo persiste como um relâmpago de pedra,
onde o corpo se nega, onde a noite ensurdece,
caminho sobre pedras na minha casa pobre.

Não conheço esse lago, não fui a esse país.
Mas aqui é um termo ou um princípio novo.
Com a baba do cavalo, com os seus nervos mais finos
reconstruí o corpo, silenciei os membros.

Não se estancou a sede, no mesmo caos de agora,
mas a língua rebenta, as vértebras estalam
por uma nova língua, por um cavalo que una

a terra à tua boca, e a tua boca à água.
António Ramos Rosa, in "Antologia Poética"

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Fascinação

 Paris, 2012 © Adelina Silva

Os sonhos mais lindos, sonhei
De quimeras mil, um castelo ergui
E no teu olhar tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ
(...)
Mas, um destino mau certo dia chegou
E sem o teu meu coração ficou.
Hoje, sombra sou do que fui,
Minhas ilusões o destino levou.
Nada mais existe desde que partiste
E em meu coração só saudade ficou.
Vivo com o passado a sonhar,
Vendo-te, ainda, em meu coração.
Mas tudo promessas, quimeras, mentiras
Da tua fascinação.
F. D. Marchetti e M. de Feraudy