domingo, 18 de outubro de 2015

Praia de Esquecimento

Póvoa de Varzim, 2015 © Adelina Silva

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele

quando nasceu.


David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

...E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Troia, 2015 © Adelina Silva

(...)
Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;
Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das coisas
E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;
E não, como temos, uma ideia do «total» das coisas.
E assim - veríamos - não teríamos noção de conjunto ou de total,
Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto»

Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.
(...)


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Rua de sentido único

Algures sobre a Europa, 2015 © Adelina Silva


O efeito de uma estrada campestre não é o mesmo quando se caminha por ela ou quando a sobrevoamos de avião. De igual modo, o efeito de um texto não é o mesmo quando ele é lido ou copiado. O passageiro do avião vê apenas como a estrada abre caminho pela paisagem, como ela se desenrola de acordo com o padrão do terreno adjacente. Somente aquele que percorre a estrada a pé se dá conta dos efeitos que ela produz e de como daquela mesma paisagem, que aos olhos de quem a sobrevoa não passa de um terreno indiferenciado, afloram distâncias, belvederes, clareiras, perspectivas a cada nova curva. 

Walter Benjamin, in "Rua de Sentido Único"

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Oceano Nox

Porto Covo, 2015 © Adelina Silva

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Antero de Quental, in "Sonetos"


sábado, 22 de agosto de 2015

O meu horizonte

Es Trenc, 2015 © Adelina Silva

Penso muitas vezes no dia em que vislumbrei o mar pela primeira vez. O mar é grande, o mar é imenso, o meu olhar vagueava pela praia fora e esperava ser libertado: mas lá ao fundo, porém, estava o horizonte. Por que razão tenho eu um horizonte? Da vida, eu esperei o infinito.
Acaso será mais estreito, o meu horizonte, do que o das outras pessoas? Disse que me falta o sentido dos factos — acaso terei esse sentido em demasia? Desisto cedo de mais? Acabo depressa de mais? Será que conheço a felicidade e a dor apenas nos graus mais baixos, apenas no estado rarefeito?

Thomas Mann, in "Contos"


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O boi da paciência

Vilarinho Seco, 2015 © Adelina Silva

(...)
A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
as constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!

António Ramos Rosa, in "O Grito Claro"


domingo, 26 de julho de 2015

Quarto com vista sobre a cidade

Porto, 2015 © Adelina Silva


Quando passo ao de leve pela minha vida tudo ganha sentido. Mal paro, tropeço. Não posso parar. Bom é este fim de tarde doce e azul sem fundo que resplendece no ar. Tudo se torna suave e sei que sou parte inteira deste universo que, a esta hora, se mostra assim.
Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. E o meu sexo nos seus dentes.
Vem ter comigo que eu não espero mais.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Monge Maldito

Porto, 2015 © Adelina Silva

Os devotos painéis dos antigos conventos,
Reproduzindo a santa imagem da Verdade,
Davam certo conforto aos sóbrios monumentos,
Tornavam menos fria aquela austeridade.

Olhos fitos em Deus, nos santos mandamentos,
Mais de um monge alcançou palma de santidade,
A' Morte consagrando obras e pensamentos
Numa vida de paz, de labor, de humildade.

Minh'alma é um coval onde, monge maldito,
Desde que existe o mundo, aborrecido, habito,
Sem ter um só painel que possa contemplar...

— O' monge mandrião! se quer's viver, contente,
uma vida de paz, não seja indolente;
Caleja-me essas mãos, trabalha! vai cavar!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


sábado, 11 de julho de 2015

Ó gente da minha terra...

Vilarinho Seco, 2015 © Adelina Silva

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

 Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

 Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

 E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

 Amália Rodrigues


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Dó mi fá sol

Vilarinho Seco, 2015 © Adelina Silva


Por entre os sons da música, ao ouvido 
como a uma porta que ficou entreaberta 
o que se me revela em ter sentido 
é o que por essa música encoberta 

acena em vão do outro lado dela 
e eu sinto como a voz que respondesse 
ao que em mim não chamou nem está nela, 
porque é só o desejar que aí batesse. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 1"