sábado, 12 de julho de 2014

Arte?

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

Nós não nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao nível mais corriqueiro. Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emoção. Às vezes mesmo a escolha do papel higiénico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, nós acabaríamos por ler aí uma ordem. E não é o que fazemos ao inventarmos as constelações? Admitir a morte da arte é admitir a morte do homem, que impõe essa arte a tudo o que vê. Mas tenho de ir à casa de banho. A ver se invento arte mesmo aí. (Mas quando disse «casa de banho» e não «retrete», já a inventei.)

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 3”



terça-feira, 1 de julho de 2014

The Big Bang Theory

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

(...)
Esse estranho cilício, 
e de entregar-me à vida como a 
                                             um vício. 

Alegria! 
Alegria! 
Volúpia de sentir-me em cada dia 
mais cansada, mais triste, mais dorida 
mas cada vez mais agarrada à Vida! 


Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"

domingo, 15 de junho de 2014

Por do sol

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"

sábado, 31 de maio de 2014

Chorai arcadas

Merida, 2014 © Adelina Silva

Chorai arcadas
Do violoncelo!
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo...
De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
(...)
Dos balaústres!
Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.

Camilo Pessanha, in "Clepsidra"


quinta-feira, 15 de maio de 2014

A Fábrica

Porto, 2014 © Adelina Silva

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico 
e perfeito, 
a beleza nova dos maquinismos, 
a força secreta das peças 
sob o contacto liso e frio dos metais, 
a segura confiança 

do saber-se que é assim e assim exactamente, 
sem lugar a enganos, 
tudo matemático e harmónico, 
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura, 
como na cabeça do engenheiro. 
(...)

Joaquim Namorado, in "Antologia Poética"





sábado, 3 de maio de 2014

Carta à minha Filha

Porto, 2011 © Adelina Silva

Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? 
Eras pequena e o cabelo mais claro, 
mas os olhos iguais. Na metáfora dada 
pela infância, perguntavas do espanto 
da morte e do nascer, e de quem se seguia 
e porque se seguia, ou da total ausência 
de razão nessa cadeia em sonho de novelo. 

Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se 
de junho, o teu cabelo claro mais escuro, 
queria contar-te que a vida é também isso: 
uma fila no espaço, uma fila no tempo 
e que o teu tempo ao meu se seguirá. 

Num estilo que gostava, esse de um homem 
que um dia lembrou Goya numa carta a seus 
filhos, queria dizer-te que a vida é também 
isto: uma espingarda às vezes carregada 
(como dizia uma mulher sozinha, mas grande 
de jardim). Mostrar-te leite-creme, deixar-te 
testamentos, falar-te de tigelas - é sempre 
olhar-te amor. Mas é também desordenar-te à 
vida, entrincheirar-te, e a mim, em fila descontínua 
de mentiras, em carinho de verso. 
(...)

Ana Luísa Amaral, in  "Imagias (Um pouco só de Goya: Carta a minha Filha)"