sábado, 29 de setembro de 2012

A Estrela é minha

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Cecília Meireles, in "Obra poética de Cecília Meireles"

domingo, 23 de setembro de 2012

Gorilas na cidade

Lisboa, 2010 © Adelina Silva

Finalmente, trazem nossa genebra. À sua prosperidade. Sim, o gorila abriu a boca para me chamar de doutor. Nesta terra, todo mundo é doutor ou professor. Gostam de mostrar-se respeitosos, por bondade e por modéstia. Entre eles, pelo menos, a maldade não é uma instituição nacional. Além disso, não sou médico. Se quer mesmo saber, eu era advogado antes de vir para cá. Agora, sou juiz-penitente.
Mas permita que me apresente: Jean-Baptiste Clamence, seu criado. É um prazer conhecê-lo. Sem dúvida, deve ser um homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta!

Albert Camus, in "A Queda"

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Poem on The Underground Wall

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

The last train is nearly due,
The underground is closing soon,
And in the dark deserted station,
Restless in anticipation,
A man waits in the shadows.

His restless eyes leap and snatch,
At all that they can touch or catch,
And hidden deep within his pocket,
Safe within its silent socket,
He holds a coloured crayon.
(…)
….

O último comboio está quase a partir,
O subterrâneo encerrar-se-á em breve,
E na estação, escura e deserta,
Agitado por antecipação,
Um homem espera nas sombras.

Os seus olhos agitados pulam e agarram
Em tudo que possam tocar ou pegar,
E escondido no fundo do seu bolso,
Seguro no seu encaixe silencioso,
Segura um lápis colorido.
(...)



Paul Simon

domingo, 16 de setembro de 2012

A força

Valencia, 2012 © Adelina Silva


a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés:
Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Geometria

Bilbao, 2012 © Adelina Silva


Onde estão as construções
os cubos
as casinhas
e os meus olhos de menino
inventando a harmonia das cidades transparentes?
(...)
Onde está a geometria que um dia me prometeram?

Porque é que tenho de chorar sempre e sempre
à margem
da perfeição do círculo?

José Fanha

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dedo mínimo do pé esquerdo

Magaluff, 2012 © Adelina Silva
(...)
A minha personalidade a refugiar-se inteira no dedo mínimo do pé esquerdo, vejam bem.
Por vezes acontece-me.
O meu EU alojado no dedo mínimo do pé esquerdo.
Os mais importantes pensamentos concentrados no dedo mínimo do pé esquerdo.
As minhas sensações mais íntimas escondidas no dedo mínimo do pé esquerdo.


Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

É um silêncio sem ti

Magaluff, 2012 © Adelina Silva

E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Não chegaste

Porto, 2010 © Adelina Silva

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Espelho oscilante

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Ninguém compreende outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender? Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)
Tudo o que vejo é para mim o só visível, seja o céu alto azul de verde branco da manhã que há-de vir, seja o esgar falso em que se contrai o rosto de quem está a sofrer perante testemunhas a morte de quem ama.
Bonecos, ilustrações, páginas que existem e se voltam. Meu coração não está neles nem quase minha atenção, que os percorre de fora, como uma mosca por um papel.
Sei eu sequer se sinto, se penso, se existo? Nada: só um esquema objectivo de cores, de formas, de expressões de que sou o espelho oscilante por vender inútil.

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desassossego"

sábado, 25 de agosto de 2012

Partes de um todo

Léon, 2012 © Adelina Silva

Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.

Luís Filipe Parrado, in "Resumo - a poesia em 2011"

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Corpo | Arquitectura

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Pendentes como frutos ou moluscos
Da intersecção convexa das colunas
Alongam-se volume adivinhado
Nos véus retensos que os desenham soltos.
Os fustes se articulam de joelhos
Ancas artelhos metatarso e dedos.
E no de se mover arquitectura
Desnudo o templo se promete ampliado
E penetrante e ardente quando a vida
Que é suco em fruto endurecer de sangue.

Outras colunas se entreabrem já
Humedecidas no seu friso oculto
A tanta imagem prometida. E só
Os dorsos das estátuas se não findam.
De uma cintura opostamente os globos
Se erguem metades lado a lado rijos.
Lisos na curva os que de baixo avançam
E pontiagudos no seu eixo os outros
Que acima opostamente se arredondam
E em curva se diluem suaves
Na curvatura larga que irradia
De um ponto refundado até uma linha
Em que outra curva enegrecida avança.
Sob esta – aonde se bifurca o fuste –
Em lábios se abre vertical um friso
Internamente prolongado para
O duro eixo do templo receber
Que a horizontal cariátide sustenta.

Na noite cavernosa a que se aponta
E em que mergulha e se desliza e volta
Quanto se move do que as partes une
De oscilações o templo e o seu suporte –
Trementes superfícies e rebordos
Se roçam se estrangulam se recravam
Até que imóveis o edifício jorra
Adentro de si mesmo um fecho líquido
Selando a abóbada nocturna e quente
Da cripta profunda. Ou não selando.
Dentro se funde ou não se funde um ovo
Com desse líquido o pequeno acaso.
No campo se separam em pedaços
Colunas arcos tímpanos e frisos.



Jorge de Sena 

domingo, 19 de agosto de 2012

Ontem à tarde

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(...)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
(...)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXII"

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Amor Pacífico e Fecundo

Magaluf, 2012 © Adelina Silva

Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O surfista

Magaluf, 2012 © Adelina Silva

Equilibrado sobre a folha
que desliza como uma lágrima
pela face daquela onda,
a mais esperada, a mais alta,

ama esse instável chão do mundo
que lhe falta a cada segundo,

e as paredes de transparência,
que almas e corpos atravessam
ao sol da súbita inocência:

na praia, fêmeas o esperando,
como um presente do oceano.

Alberto da Cunha Melo, in "Dois caminhos e uma oração"

sábado, 21 de julho de 2012

Antes o Vôo da Ave

Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.
A recordação é uma traição à Natureza,
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII"

terça-feira, 17 de julho de 2012

Homo

Valencia, 2012 © Adelina Silva

Nenhum de vós ao certo me conhece,
Astros do espaço, ramos do arvoredo,
Nenhum adivinhou o meu segredo,
Nenhum interpretou a minha prece...

Ninguém sabe quem sou... e mais, parece
Que há dez mil anos já, neste degredo,
Me vê passar o mar, vê-me o rochedo
E me contempla a aurora que alvorece...

Sou um parto da Terra monstruoso;
Do húmus primitivo e tenebroso
Geração casual, sem pai nem mãe...

Misto infeliz de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanás; — talvez um filho
Bastardo de Jeová; — talvez ninguém!

Antero de Quental, in "Sonetos"

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pegadas

Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Mas quando cessar em mim todo o desejo de vida
E quando eu não for mais que o cansaço da minha caminhada pela areia
Eu sinto que me terás como me tinhas no passado –
Sinto que me virás oferecer a água mentirosa
Da miragem.
Talvez num ímpeto eu prefira colar a boca à areia estéril
Num desejo de aniquilamento.
Mas não. Embora sabendo que nunca alcançarei a tua imagem
Que estará suspensa e me prometerá água
Embora sabendo que tu és a que foge
Eu me arrastarei para os teus braços.

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

domingo, 8 de julho de 2012

Do inquieto oceano da multidão

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Do inquieto oceano da multidão
veio a mim uma gota gentilmente
suspirando:

— Eu te amo, há longo tempo
fiz uma extensa caminhada apenas
para te olhar, tocar-te,
pois não podia morrer
sem te olhar uma vez antes,
com o meu temor de perder-te depois.

— Agora nos encontramos e olhamos,
estamos salvos,
retorna em paz ao oceano, meu amor,
também sou parte do oceano, meu amor,
não estamos assim tão separados,
olha a imensa curvatura,
a coesão de tudo tão perfeito!
Quanto a mim e a ti,
separa-nos o mar irresistível
levando-nos algum tempo afastados,
embora não possa afastar-nos sempre:
não fiques impaciente — um breve espaço
e fica certa de que eu saúdo o ar,
a terra e o oceano,
todos os dias ao pôr-do-sol
por tua amada causa, meu amor.

Walt Whitman, in "Leaves  of Grass"

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Noções

Vila Real, 2008 © Adelina Silva

Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera…


Cecília Meireles

terça-feira, 3 de julho de 2012

Como uma criança

Porto, 2011 © Adelina Silva

Como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
Fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.


Alberto Caeiro, in "Fragmentos"