sábado, 22 de dezembro de 2012

Natal 2012

Gondomar, 2011 © Adelina Silva

Eu sobrevivi a 21 de dezembro de 2012!!!     J



quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Música Suave

Paços de Ferreira, 2012 ©  Adelina Silva
Música suave como a neve
caindo devagar
no espaço breve
de um sonho prestes a acordar.

Uma flauta chora
nesta noite fria.
O vento canta lá fora
a mesma sinfonia.

E eu aqui fel e vinagre
sem ter consolação,
quando, afinal, o milagre
é ouvir o coração.

António Arnaut


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Neurastenia

Póvoa de Varzim, 2008 ©  Adelina Silva

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
 Um sino dobra em mim Ave-Maria!
 Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
 Faz na vidraça rendas de Veneza ...

 (...)

 Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
 Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
 Digam isto que sinto que eu não posso!! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"


quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O diálogo

Póvoa de Varzim, 2010 © Adelina Silva


Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.



Carlos Drummond de Andrade, in "Discurso da Primavera"


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pensar em quê?

Paris, 2012 © Adelina Silva

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).



Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema V"


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Esperei por ti

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
(...)
desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti



Al Berto


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O carrossel

Paris, 2012 © Adelina Silva

Gira por mais um momento o conjunto -
seu teto, a sombra, as cores e os cavalos,
como se fossem todos de outro mundo
que imerge e ainda hesita em abandoná-los.
Alguns vão atrelados e entretanto
bravura todos levam na expressão;
com eles, rubro e fero, um leão;
e vez em quando um elefante branco.
(...)
E tudo segue e corre sem que adiante,
e gira e roda sem nenhum destino,
verde, vermelho, gris passam avante
e o esboço inicial de algum menino.
E ás vezes um sorriso, deslumbrante,
dirige-se feliz, num desatino,
ao jogo sério e cego e ofegante...



Rainer Maria Rilke


domingo, 4 de novembro de 2012

Um dia... a gente se supera

Gondomar, 2012 © Adelina Silva

Não sou boa com números. Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego.Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não colecciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E - sem saber - busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir... Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem - na verdade - a gente é.


Fernanda Mello


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Espelho de um momento

Gondomar, 2011 © Adelina Silva

Ele dissipa a claridade
Mostra aos homens as imagens sutis da aparência
Arrebata aos homens a possibilidade de se distraírem.
É duro quanto a pedra,
A pedra informe,
A pedra do movimento e da rua,
E seu brilho é tal que todas as armaduras, todas as máscaras se deformam.
O que a mão tomou desdenha mesmo de tomar a forma da mão.
O que foi compreendido não existe mais,
A ave se confundiu com o vento,
O céu com sua verdade
O homem com sua realidade.


Paul Éluard, in "Poemas"

sábado, 27 de outubro de 2012

Quem sou e quem fui

© Adelina Silva

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.


Ricardo Reis, in "Odes"

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ponte de tédio

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


Mário de Sá Carneiro, in "Indícios de Oiro"

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Tenho ganas...

Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Descasquei o camarão,
Tirei-lhe a cabeça toda.
Quando o amor não tem razão
É que o amor incomoda.


Fernando Pessoa, in "Quadras ao gosto popular"

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um grande lagarto verde

Madrid, 2012 © Adelina Silva

Por esse Mar das Antilhas
(que também Caribe chamam)
batida por ondas duras
e ornada de espumas brandas,
sob este sol que a persegue,
sob o vento que a rechaça,
cantando em lágrima viva
navega Cuba em seu mapa:
um grande lagarto verde,
com olhos de pedra e água.
(...)


Nicolás Guillén

domingo, 14 de outubro de 2012

Sorriso Audível das Folhas

Madrid, 2012 © Adelina Silva

Sorriso audível das folhas
Não és mais que a brisa ali
Se eu te olho e tu me olhas,
Quem primeiro é que sorri?
O primeiro a sorrir ri.

Ri e olha de repente
Para fins de não olhar
Para onde nas folhas sente
O som do vento a passar
Tudo é vento e disfarçar.

Mas o olhar, de estar olhando
Onde não olha, voltou
E estamos os dois falando
O que se não conversou
Isto acaba ou começou?


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

domingo, 7 de outubro de 2012

Guernica ao Jantar

Madrid, 2012 © Adelina Silva

Porque chora esta mulher
de rosto fragmentado e colorido?
Será que pressente a tragédia
monocolor de Guernica, o sangue e o grito,
o fogo vindo do céu, a súplica vinda da terra?
Será que chora por tudo aquilo
que ouviu contar, por tudo aquilo
que lhe roubou o sono e o brilho dos olhos?
Se beleza existe neste rosto inclinado,
neste olhar oblíquo e baço
e no esgar da boca que se dissolve,
é na aflição dos dedos que se desmente.
A mulher que chora é Espanha
garbosa, saborosa, arrebatada
a chorar os irmãos mortos pelos irmãos
na tragédia civil das baionetas
trespassando os corpos fora das arenas.
É Espanha desgostosa a coleccionar imagens
para a grande tela da dor de uma pátria
a morrer em silêncio às portas das catedrais
que Deus, inclemente, deixou de visitar.


José Jorge Letria, in "Sobre Retratos"

sábado, 29 de setembro de 2012

A Estrela é minha

Póvoa de Varzim, 2011 © Adelina Silva

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.

Cecília Meireles, in "Obra poética de Cecília Meireles"

domingo, 23 de setembro de 2012

Gorilas na cidade

Lisboa, 2010 © Adelina Silva

Finalmente, trazem nossa genebra. À sua prosperidade. Sim, o gorila abriu a boca para me chamar de doutor. Nesta terra, todo mundo é doutor ou professor. Gostam de mostrar-se respeitosos, por bondade e por modéstia. Entre eles, pelo menos, a maldade não é uma instituição nacional. Além disso, não sou médico. Se quer mesmo saber, eu era advogado antes de vir para cá. Agora, sou juiz-penitente.
Mas permita que me apresente: Jean-Baptiste Clamence, seu criado. É um prazer conhecê-lo. Sem dúvida, deve ser um homem de negócios, não é? Mais ou menos? Excelente resposta!

Albert Camus, in "A Queda"

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A Poem on The Underground Wall

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

The last train is nearly due,
The underground is closing soon,
And in the dark deserted station,
Restless in anticipation,
A man waits in the shadows.

His restless eyes leap and snatch,
At all that they can touch or catch,
And hidden deep within his pocket,
Safe within its silent socket,
He holds a coloured crayon.
(…)
….

O último comboio está quase a partir,
O subterrâneo encerrar-se-á em breve,
E na estação, escura e deserta,
Agitado por antecipação,
Um homem espera nas sombras.

Os seus olhos agitados pulam e agarram
Em tudo que possam tocar ou pegar,
E escondido no fundo do seu bolso,
Seguro no seu encaixe silencioso,
Segura um lápis colorido.
(...)



Paul Simon

domingo, 16 de setembro de 2012

A força

Valencia, 2012 © Adelina Silva


a Força Exacta é violência.
a Força em espirro, ao acaso, não é violência, é existência.
O mal é Fixar a Força (direccioná-la) porque a natureza espontânea não o FAZ.
Natural é ser FORTE, isto é, avançar.
Violento é o Percurso que antecede o viajante. Antes dos pés:
Sapatos; a estrada.
A Força Exacta é violência.
A natureza não tem, nunca teve, Forças EXACTAS.
E tudo o que o homem faz é tornar exacta a FORÇA.
Ser violento é construir; todo o Edifício é violência.
O homem é o Exacto da Natureza; a falha NATURAL; o Erro.
Deus errou:
fez o homem EXACTO.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Geometria

Bilbao, 2012 © Adelina Silva


Onde estão as construções
os cubos
as casinhas
e os meus olhos de menino
inventando a harmonia das cidades transparentes?
(...)
Onde está a geometria que um dia me prometeram?

Porque é que tenho de chorar sempre e sempre
à margem
da perfeição do círculo?

José Fanha

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Dedo mínimo do pé esquerdo

Magaluff, 2012 © Adelina Silva
(...)
A minha personalidade a refugiar-se inteira no dedo mínimo do pé esquerdo, vejam bem.
Por vezes acontece-me.
O meu EU alojado no dedo mínimo do pé esquerdo.
Os mais importantes pensamentos concentrados no dedo mínimo do pé esquerdo.
As minhas sensações mais íntimas escondidas no dedo mínimo do pé esquerdo.


Gonçalo M. Tavares

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

É um silêncio sem ti

Magaluff, 2012 © Adelina Silva

E de súbito desaba o silêncio.

É um silêncio sem ti,
sem álamos,
sem luas.
Só nas minhas mãos
ouço a música das tuas.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Não chegaste

Porto, 2010 © Adelina Silva

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Espelho oscilante

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Ninguém compreende outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra - sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito. Quem é capaz de entender? Talvez seja por este cepticismo do inteligível que eu encaro de igual modo uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo artificial, tudo igual.)
Tudo o que vejo é para mim o só visível, seja o céu alto azul de verde branco da manhã que há-de vir, seja o esgar falso em que se contrai o rosto de quem está a sofrer perante testemunhas a morte de quem ama.
Bonecos, ilustrações, páginas que existem e se voltam. Meu coração não está neles nem quase minha atenção, que os percorre de fora, como uma mosca por um papel.
Sei eu sequer se sinto, se penso, se existo? Nada: só um esquema objectivo de cores, de formas, de expressões de que sou o espelho oscilante por vender inútil.

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desassossego"

sábado, 25 de agosto de 2012

Partes de um todo

Léon, 2012 © Adelina Silva

Esta tarde, sentado num banco do jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco de plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.

Luís Filipe Parrado, in "Resumo - a poesia em 2011"

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Corpo | Arquitectura

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Pendentes como frutos ou moluscos
Da intersecção convexa das colunas
Alongam-se volume adivinhado
Nos véus retensos que os desenham soltos.
Os fustes se articulam de joelhos
Ancas artelhos metatarso e dedos.
E no de se mover arquitectura
Desnudo o templo se promete ampliado
E penetrante e ardente quando a vida
Que é suco em fruto endurecer de sangue.

Outras colunas se entreabrem já
Humedecidas no seu friso oculto
A tanta imagem prometida. E só
Os dorsos das estátuas se não findam.
De uma cintura opostamente os globos
Se erguem metades lado a lado rijos.
Lisos na curva os que de baixo avançam
E pontiagudos no seu eixo os outros
Que acima opostamente se arredondam
E em curva se diluem suaves
Na curvatura larga que irradia
De um ponto refundado até uma linha
Em que outra curva enegrecida avança.
Sob esta – aonde se bifurca o fuste –
Em lábios se abre vertical um friso
Internamente prolongado para
O duro eixo do templo receber
Que a horizontal cariátide sustenta.

Na noite cavernosa a que se aponta
E em que mergulha e se desliza e volta
Quanto se move do que as partes une
De oscilações o templo e o seu suporte –
Trementes superfícies e rebordos
Se roçam se estrangulam se recravam
Até que imóveis o edifício jorra
Adentro de si mesmo um fecho líquido
Selando a abóbada nocturna e quente
Da cripta profunda. Ou não selando.
Dentro se funde ou não se funde um ovo
Com desse líquido o pequeno acaso.
No campo se separam em pedaços
Colunas arcos tímpanos e frisos.



Jorge de Sena 

domingo, 19 de agosto de 2012

Ontem à tarde

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia.
(...)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava
(E isso me comoveu até às lágrimas),
Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
(...)
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXII"

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Amor Pacífico e Fecundo

Magaluf, 2012 © Adelina Silva

Não quero amor
que não saiba dominar-se,
desse, como vinho espumante,
que parte o copo e se entorna,
perdido num instante.

Dá-me esse amor fresco e puro
como a tua chuva,
que abençoa a terra sequiosa,
e enche as talhas do lar.
Amor que penetre até ao centro da vida,
e dali se estenda como seiva invisível,
até aos ramos da árvore da existência,
e faça nascer
as flores e os frutos.
Dá-me esse amor
que conserva tranquilo o coração,
na plenitude da paz!

Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera"

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O surfista

Magaluf, 2012 © Adelina Silva

Equilibrado sobre a folha
que desliza como uma lágrima
pela face daquela onda,
a mais esperada, a mais alta,

ama esse instável chão do mundo
que lhe falta a cada segundo,

e as paredes de transparência,
que almas e corpos atravessam
ao sol da súbita inocência:

na praia, fêmeas o esperando,
como um presente do oceano.

Alberto da Cunha Melo, in "Dois caminhos e uma oração"