quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Há dias...

Paris, 2012 © Adelina Silva

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.


Rosa Alice Branco, in "Animal Volátil"


sábado, 12 de Julho de 2014

Arte?

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

Nós não nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao nível mais corriqueiro. Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emoção. Às vezes mesmo a escolha do papel higiénico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, nós acabaríamos por ler aí uma ordem. E não é o que fazemos ao inventarmos as constelações? Admitir a morte da arte é admitir a morte do homem, que impõe essa arte a tudo o que vê. Mas tenho de ir à casa de banho. A ver se invento arte mesmo aí. (Mas quando disse «casa de banho» e não «retrete», já a inventei.)

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 3”



terça-feira, 1 de Julho de 2014

The Big Bang Theory

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

(...)
Esse estranho cilício, 
e de entregar-me à vida como a 
                                             um vício. 

Alegria! 
Alegria! 
Volúpia de sentir-me em cada dia 
mais cansada, mais triste, mais dorida 
mas cada vez mais agarrada à Vida! 


Fernanda de Castro, in "D'Aquém e D'Além Alma"

domingo, 15 de Junho de 2014

Por do sol

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.


David Mourão-Ferreira, in "Tempestade de Verão"