sábado, 12 de Abril de 2014

Tudo em mim ressuscita

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

Alma! Que tu não chores e não gemas,
         Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
         Lá onde a loucura mora!

(...)

Porém tu, afinal, ressuscitaste
        E tudo em mim ressuscita.
E o meu Amor, que repurificaste,
         Canta na paz infinita!

Cruz e Sousa

domingo, 6 de Abril de 2014

O meu olhar é azul

Sevilha, 2014 © Adelina Silva

O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo, 
Porque não interroga nem se espanta ... 
Se eu interrogasse e me espantasse 
Não nasciam flores novas nos prados 
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado 
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ... 
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço, 
Para não parecer que penso nisso...



Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIII" 

sábado, 5 de Abril de 2014

Vou-me embora

Bilbao, 2012 © Adelina Silva

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
(...)
Manuel Bandeira


domingo, 30 de Março de 2014

Não sei, sei lá!

Porto, 2010 © Adelina Silva



O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou. 

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desassossego"


sexta-feira, 21 de Março de 2014

Full speed ahead

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

(...)

Ah, que pavor negregado
Ah, que angústia desvairada 
Naquele túnel sem termo 
Cavalgando sem cavalo!

Foi quando meu pai me disse: 
– Vem nascendo a madrugada... 
E eu embora não a visse 
Pressenti-a nas palavras 
De meu pai ressuscitado 
Pela luz da realidade.
(...)

Vinicius de Moraes, in "Prosa e Poesia Completa"


domingo, 16 de Março de 2014

Ouve o silêncio

Sevilha, 2014 © Adelina Silva



Ouve como o silêncio 
Se fez de repente 
Para o nosso amor

Horizontalmente...

Crê apenas no amor 
   E em mais nada
Cala; escuta o silêncio 
   Que nos fala
Mais intimamente; ouve 
   Sossegada
O amor que despetala 
   O silêncio...

Deixa as palavras à poesia...

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"

sábado, 8 de Março de 2014

O universo é o sonho

Sevilha, 2014 © Adelina Silva

1. Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso. 
2. O universo porém — ao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos — revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis. 
3. Àparte isso, o universo, ou grande parte dele, é um «conceito» comum a todos os que são constituídos como nós: isto é, é um conceito do espírito humano. 
4. O universo é considerado objectivo, real — por isso e pela própria constituição dos nossos sentidos. 
5. Como objectivo, o universo é pois o conceito de um espírito infinito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e omnipotente. 

(...)

Fernando Pessoa, in "Textos Filosóficos" 

quarta-feira, 5 de Março de 2014

Conto de Fadas

Sevilha, 2014 © Adelina Silva

Eu trago-te nas mãos o esquecimento 
Das horas más que tens vivido, Amor! 
E para as tuas chagas o unguento 
Com que sarei a minha própria dor. 

 Os meus gestos são ondas de Sorrento... 
Trago no nome as letras duma flor... 
Foi dos meus olhos garços que um pintor 
Tirou a luz para pintar o vento... 

 Dou-te o que tenho: o astro que dormita, 
O manto dos crepúsculos da tarde, 
O sol que é de ouro, a onda que palpita. 

 Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! 
Eu sou Aquela de quem tens saudade, 
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca

quinta-feira, 27 de Fevereiro de 2014

O que diz o rio além?

Porto, 2013 © Adelina Silva

Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...


Pedro Homem de Mello, in "Poesias Escolhidas"


sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

A escada da vida

Sintra, 2013 © Adelina Silva


É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.
(...)
Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira