domingo, 26 de julho de 2015

Quarto com vista sobre a cidade

Porto, 2015 © Adelina Silva


Quando passo ao de leve pela minha vida tudo ganha sentido. Mal paro, tropeço. Não posso parar. Bom é este fim de tarde doce e azul sem fundo que resplendece no ar. Tudo se torna suave e sei que sou parte inteira deste universo que, a esta hora, se mostra assim.
Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. E o meu sexo nos seus dentes.
Vem ter comigo que eu não espero mais.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

O Monge Maldito

Porto, 2015 © Adelina Silva

Os devotos painéis dos antigos conventos,
Reproduzindo a santa imagem da Verdade,
Davam certo conforto aos sóbrios monumentos,
Tornavam menos fria aquela austeridade.

Olhos fitos em Deus, nos santos mandamentos,
Mais de um monge alcançou palma de santidade,
A' Morte consagrando obras e pensamentos
Numa vida de paz, de labor, de humildade.

Minh'alma é um coval onde, monge maldito,
Desde que existe o mundo, aborrecido, habito,
Sem ter um só painel que possa contemplar...

— O' monge mandrião! se quer's viver, contente,
uma vida de paz, não seja indolente;
Caleja-me essas mãos, trabalha! vai cavar!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


sábado, 11 de julho de 2015

Ó gente da minha terra...

Vilarinho Seco, 2015 © Adelina Silva

É meu e vosso este fado
Destino que nos amarra
Por mais que seja negado
Às cordas de uma guitarra

 Sempre que se ouve o gemido
De uma guitarra a cantar
Fica-se logo perdido
Com vontade de chorar

 Ó gente da minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi

 E pareceria ternura
Se eu me deixasse embalar
Era maior a amargura
Menos triste o meu cantar

 Amália Rodrigues


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Dó mi fá sol

Vilarinho Seco, 2015 © Adelina Silva


Por entre os sons da música, ao ouvido 
como a uma porta que ficou entreaberta 
o que se me revela em ter sentido 
é o que por essa música encoberta 

acena em vão do outro lado dela 
e eu sinto como a voz que respondesse 
ao que em mim não chamou nem está nela, 
porque é só o desejar que aí batesse. 

Vergílio Ferreira, in "Conta-Corrente 1"

sábado, 27 de junho de 2015

A tarde é calma

A-Ver-o-Mar, 2015 © Adelina Silva

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

 Fernando Pessoa