domingo, 19 de Outubro de 2014

Pode-se escrever

Póvoa de Varzim, 2009 © Adelina Silva

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada


Pode-se não escrever 

Pedro Oom

sábado, 11 de Outubro de 2014

A Ponte

Mérida, 2014 © Adelina Silva


Se me dizem que estás do outro lado

de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,

eu cruzarei essa ponte.

Diz-me qual é a ponte que separa

tua vida da minha,

em que hora negra, em que cidade chuvosa
em que mundo sem luz está essa ponte,

e eu a cruzarei.

Amalia Bautista

quarta-feira, 1 de Outubro de 2014

Conversa Sentimental

Porto, 2010 © Adelina Silva

No velho parque deserto e gelado
Duas formas passaram há bocado.

Com os olhos mortos e os lábios moles,
Mal se ouvem, a custo, as suas vozes.

No velho parque deserto e gelado
Dois espectros evocaram o passado.

— Recordas-te do nosso êxtase antigo?
— Por que razão acha que ainda consigo?

— Bate, ao ouvires meu nome, o coração?
Vês ainda a minha alma em sonhos? — Não.

— Ah! bons tempos de prazer indizível
Unindo as nossas bocas! — É possível.

— Como era azul, o céu, e grande a esperança!
— Mas é prò negro céu que hoje se lança.

Lá caminhavam pelas aveias loucas
E só a noite ouviu as suas bocas.


Paul Verlaine, in "Festas Galantes"


sábado, 20 de Setembro de 2014

O Homem e o Mar

Póvoa de Varzim, 2012 © Adelina Silva

Homem livre, o oceano é um espelho fulgente
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado,
Como em puro cristal, contemplas, retratado,
Teu íntimo sentir, teu coração ardente.

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"


sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Obrigada!

Cartagena, 2013 © Adelina Silva


Eu agradeço
Eu agradeço a você Muito obrigado por toda a beleza que você nos deu 
Foi a melhor recompensa
Que a vida nos ofereceu
Você ter vindo
Sempre ajudando, sorrindo, dizendo 
Você ter me virado do avesso
E ensinado a viver
Eu reconheço que não tem preço
Gente que gosta de gente assim feito você 

Sua presença, eu reconheço
Foi muito lindo
Que não tem de quê
Eu agradeço, eu agradeço

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"


quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Ponte

Porto, 2014 © Adelina Silva

(...)
Fica-se a ponte no espaço 

À espera de quem lá passe 

Que o motivo de ser ponte 

Se não pára a construção 

Vai muito mais a vontade 

De estarem onde não estão 


               (...)
Amanhã o novo dia 

Se o merecer e me for dado 

Um outro pilar da ponte 

Cravado no fundo do mar 

Torna mais breve a distância 

Do que falta caminhar 



Há sempre um ponto de mira 

O mais comum horizonte 

Nunca as pontes lá chegaram 

Porque acaba o construtor 

Antes que a ponte se entronque 


Onde se acaba o transpor 

(...)

José Saramago, in "Provavelmente Alegria"