segunda-feira, 2 de março de 2015

O caminho faz-se caminhando

Faro, 2015 © Adelina Silva

(…)
Ao andar faz-se o caminho
E ao olhar-se para atrás,
Vê-se a senda que jamais,
Se há-de voltar a pisar.
Caminhante não há caminho,
Somente sulcos no mar.


António Machado

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

... É querer estar preso por vontade...

Tavira, 2015 © Adelina Silva

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís Vaz de Camões


sábado, 24 de janeiro de 2015

Flor que não dura

Gondomar, 2015 © Adelina Silva

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.

 Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A máscara

Cádiz, 2014 © Adelina Silva

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


Álvaro de Campos, in "Poemas"


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O ontem que a dor deixou

Caxinas, 2015 © Adelina Silva


Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

Fernando Pessoa, in "Poesias Inéditas"

Caxinas, 2015 © Adelina Silva






segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

É quando um homem quiser

2010 © Adelina Silva

(...)
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e combóios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Natal é em Dezembro


Ary dos Santos

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O Mapa

Madrid, 2012 © Adelina Silva

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(…)


Mário Quintana, in “Apontamentos de História Sobrenatural”


domingo, 9 de novembro de 2014

domingo, 2 de novembro de 2014

Ei-las... as mãos

2012 © Adelina Silva

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"