sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Obrigada!

Cartagena, 2013 © Adelina Silva


Eu agradeço
Eu agradeço a você Muito obrigado por toda a beleza que você nos deu 
Foi a melhor recompensa
Que a vida nos ofereceu
Você ter vindo
Sempre ajudando, sorrindo, dizendo 
Você ter me virado do avesso
E ensinado a viver
Eu reconheço que não tem preço
Gente que gosta de gente assim feito você 

Sua presença, eu reconheço
Foi muito lindo
Que não tem de quê
Eu agradeço, eu agradeço

Vinicius de Moraes, in "Poesia Completa e Prosa"


quarta-feira, 27 de Agosto de 2014

Ponte

Porto, 2014 © Adelina Silva

(...)
Fica-se a ponte no espaço 

À espera de quem lá passe 

Que o motivo de ser ponte 

Se não pára a construção 

Vai muito mais a vontade 

De estarem onde não estão 


               (...)
Amanhã o novo dia 

Se o merecer e me for dado 

Um outro pilar da ponte 

Cravado no fundo do mar 

Torna mais breve a distância 

Do que falta caminhar 



Há sempre um ponto de mira 

O mais comum horizonte 

Nunca as pontes lá chegaram 

Porque acaba o construtor 

Antes que a ponte se entronque 


Onde se acaba o transpor 

(...)

José Saramago, in "Provavelmente Alegria"

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

Num dia assim...

Andorra, 2014 © Adelina Silva

Na grande claridade do dia o sossego dos sons é de ouro também. Há suavidade no que acontece. Se me dissessem que havia guerra, eu diria que não havia guerra. Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver senão suavidade.

Fernando Pessoa, in "O Livro do Desasossego"


quarta-feira, 23 de Julho de 2014

Há dias...

Paris, 2012 © Adelina Silva

Ontem à tarde saí.
Queria passear as lembranças
que um dia de chuva faz crescer em nós.
Há dias que o vento rondava a casa
cheio de segredos incompletos
a roçar-me a orelha. E eu não resisto
ao sabor do vento
e a uma boa história para enganar o frio.

É fácil perdermo-nos nas ruas.
Nunca se regressa pelos mesmos caminhos
mas todos parecem iguais
com o cheiro da chuva a deixar o alcatrão
e a subir na memória
de outras ruas.
Mas há só um caminho que trilhamos. O corpo
é uma bússola fiel que segue pela estrada
enquanto o pó se levanta
muito para além dos nossos passos.


Rosa Alice Branco, in "Animal Volátil"


sábado, 12 de Julho de 2014

Arte?

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

Nós não nos damos conta de como a arte nos trespassa de todo o lado. Anotar isso aos que vaticinam a morte da arte. Isto ao nível mais corriqueiro. Dispor os móveis numa sala é fazer arte. Ou olhar uma paisagem, pôr uma flor na lapela, ou num vaso. Escolher uma gravata, uns sapatos. Provar um fato. Pentear-se. Fazer a barba ou apará-la quando comprida. Todas as coisas de cerimónia têm que ver com a arte. E o corte das unhas.
Todo o jogo. Toda a verdade que releva da emoção. Às vezes mesmo a escolha do papel higiénico. Mas mesmo a desordem. Bergson, creio, dizia que se tudo fosse desordenado, nós acabaríamos por ler aí uma ordem. E não é o que fazemos ao inventarmos as constelações? Admitir a morte da arte é admitir a morte do homem, que impõe essa arte a tudo o que vê. Mas tenho de ir à casa de banho. A ver se invento arte mesmo aí. (Mas quando disse «casa de banho» e não «retrete», já a inventei.)

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 3”