quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abismos


Lisboa, 2011 © Adelina Silva

Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser-rio, e correr?
O que é está-lo eu a ver?

Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.

Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, idéia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

4 comentários:

Arnaldo Macedo disse...

...Que mau tempo estará a fazer no Porto?
Manhã triste, pela certa.

Oxalá que os poetas românticos do Porto
sejam compreensivos a pontos de deixarem
uma nesgazinha de cemitério florido
que é para os poetas românticos de Lisboa não terem de
recorrer à vala comum.

Mário Cesariny

ams disse...

Arnaldo,

é curioso que tenhas escrito precisamente esse poema do Cesariny... Não sei porquê... talvez seja porque há coisas que não se explicam ou não têm sequer explicação. Há conteúdo no poema algo que me remete para uma reportagem da TSF premiada pela AMI sobre os indivíduos que morrem sozinhos, e das pessoas que acompanham esses cidadãos até a sua última morada. Triste realidade a nossa. Fiquei com as tripas em reboliço (ou não fosse eu tripeira), sendo que essa realidade se passava precisamente em Lisboa. Neste caso o local nem tem importância. Mau tempo, manhã triste, cemitério, vala comum... triste sina!!

Remus disse...

Como numa fotografia bonita, cheia de uma imensidão que faz perder o nosso olhar, acabou por servir de referência a cemitérios e à morte...
Eu opto por só querer ver as coisas boas. E ao ver, a fotografia, sinto-me a voar.

mfc disse...

As palavras dos comentários tocaram-me imenso.
É sempre um prazer ler gente que sente e sabe sentir.