sábado, 8 de março de 2014

O universo é o sonho

Sevilha, 2014 © Adelina Silva

1. Não conhecemos senão as nossas sensações. O universo é pois um simples conceito nosso. 
2. O universo porém — ao contrário de e em contraste com, as nossas fantasias e os nossos sonhos — revela, ao ser examinado, que tem uma ordem, que é regido por regras sem excepção a que chamamos leis. 
3. Àparte isso, o universo, ou grande parte dele, é um «conceito» comum a todos os que são constituídos como nós: isto é, é um conceito do espírito humano. 
4. O universo é considerado objectivo, real — por isso e pela própria constituição dos nossos sentidos. 
5. Como objectivo, o universo é pois o conceito de um espírito infinito, único que pode sonhar de modo a criar. O universo é o sonho de um sonhador infinito e omnipotente. 

(...)

Fernando Pessoa, in "Textos Filosóficos" 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Conto de Fadas

Sevilha, 2014 © Adelina Silva

Eu trago-te nas mãos o esquecimento 
Das horas más que tens vivido, Amor! 
E para as tuas chagas o unguento 
Com que sarei a minha própria dor. 

 Os meus gestos são ondas de Sorrento... 
Trago no nome as letras duma flor... 
Foi dos meus olhos garços que um pintor 
Tirou a luz para pintar o vento... 

 Dou-te o que tenho: o astro que dormita, 
O manto dos crepúsculos da tarde, 
O sol que é de ouro, a onda que palpita. 

 Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! 
Eu sou Aquela de quem tens saudade, 
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O que diz o rio além?

Porto, 2013 © Adelina Silva

Que diz além, além entre montanhas,
O rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há-de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...


Pedro Homem de Mello, in "Poesias Escolhidas"


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A escada da vida

Sintra, 2013 © Adelina Silva


É uma escada em caracol
E que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
Mas nunca passa do chão.
(...)
Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
O lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Corre-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.

David Mourão Ferreira


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Tu vinhas... e eu espero.

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

Não me fizeste sofrer 
mas esperar. 

(...)
Eu não sofri, meu amor, 
esperava-te apenas. 

(...)
Não sofri a procurar-te, 
sabia que virias, 
mas outra, com o que adoro 
da mulher que não adorava, 
com teus olhos, tuas mãos e tua boca, 
mas com outro coração, 
que amanheceu a meu lado 
como se sempre tivesse estado ali 
para continuar comigo para sempre. 


Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão"


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dia Chuvoso


Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva


Hoje o dia é um dia chuvoso e triste 
amortalhado 
Naquela monotonia doente dos grandes dias. 

Hoje o dia...
 (a pena caiu-me das mãos) 

Acabou-se o poema no papel. 
Cá por dentro 
Continua... 

Oh! este marulhar das almas no silêncio! 


Fernando Namora, in "Relevos"


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Asas e raízes

Sevilha, 2009 © Adelina Silva

“Bendito aquele que consegue dar aos seus filhos asas e raízes”, diz um provérbio.
Precisamos das raízes: existe um lugar no mundo onde nascemos, aprendemos uma língua, descobrimos como nossos antepassados superavam seus problemas. Em um dado momento, passamos a ser responsáveis por este lugar.
Precisamos das asas. Elas nos mostram os horizontes sem fim da imaginação, nos levam até nossos sonhos, nos conduzem a lugares distantes. São as asas que nos permitem conhecer as raízes de nossos semelhantes, e aprender com eles.
Bendito quem tem asas e raízes; e pobre de quem tem apenas um dos dois.


Paulo Coelho, in "Histórias para os pais, filhos, e netos - Volume 2"

sábado, 25 de janeiro de 2014

Rumo a Ítaca

Foz do Lizandro, 2013 © Adelina Silva


Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Posídon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Posídon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.
(...)

Konstantinos Kaváfis



sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O dia deu em chuvoso

Sintra, 2013 © Adelina Silva

O dia deu em chuvoso. 
A manhã, contudo, esteve bastante azul. 
O dia deu em chuvoso. 
Desde manhã eu estava um pouco triste. 

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? 
Não sei: já ao acordar estava triste. 
O dia deu em chuvoso. 

(...)

Álvaro de Campos, in "Poemas"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Passa, ave, passa...

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

Antes o vôo da ave, que passa e não deixa rasto, 
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão. 
A ave passa e esquece, e assim deve ser. 
O animal, onde já não está e por isso de nada serve, 
Mostra que já esteve, o que não serve para nada. 
A recordação é uma traição à Natureza, 
Porque a Natureza de ontem não é Natureza. 
O que foi não é nada, e lembrar é não ver. 
Passa, ave, passa, e ensina-me a passar! 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLIII" 


quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Trago boca para comer

Póvoa de Varzim, 2014 © Adelina Silva

(...)
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
não tenho tempo a perder.

(...)

António Gedeão

sábado, 28 de dezembro de 2013

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Porta Aberta

Roma, 2013 © Adelina Silva

A vida não é um corredor reto e tranquilo
que nós percorremos livre e sem empecilhos, 
mas um labirinto de passagens, pelas quais 
nós devemos procurar nosso caminho, 
perdidos e confusos, de vez em quando presos
em um beco sem saída.

Porém, se tivermos fé, uma porta
sempre será aberta para nós, 
não talvez aquela sobre a qual
nós mesmos nunca pensamos, 
mas aquela que definitivamente
se revelará boa para nós.


Archibald Joseph Cronin


sábado, 21 de dezembro de 2013

O Douro bebe as cores da cidade

Porto, 2013 © Adelina Silva

(...)
O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raizes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.

(...)

Egito Gonçalves

sábado, 14 de dezembro de 2013

|Im|Possível


Barcelona, 2013 © Adelina Silva

Tudo parece impossível até que seja feito.


Nelson Mandela


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

The future awaits

Bruxelas, 2013 © Adelina Silva

"A distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente."

Albert Einstein